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O eleitor que mais cresce no Brasil é o que não precisa votar

Faixa acima dos 70 anos cresceu 15,75% desde 2022, soma quase 17 milhões de pessoas e teve abstenção de quase 60% no primeiro turno, segundo TSE e Data8

Por José Henrique Azeredo • • 2 min de leitura
Idosa com mais de 70 anos segura título de eleitor com identificação biométrica durante as eleições no Brasil, destacando a participação eleitoral da população idosa e o direito ao voto na terceira idade.

Idosa com mais de 70 anos segura título de eleitor com identificação biométrica durante as eleições no Brasil, destacando a participação eleitoral da população idosa e o direito ao voto na terceira idade.

A urna ficou eletrônica há 30 anos. A regra do voto aos 70 continua a de 1988.

Neste domingo, quase 17 milhões de brasileiros votam só se quiserem.

São os eleitores acima de 70 anos, mais de um em cada dez aptos. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, a faixa cresceu 15,75% desde 2022. O eleitorado inteiro, 1,46%.

A exceção virou bloco.

O artigo 14 da Constituição torna o voto obrigatório dos 18 aos 70 anos e facultativo depois. Antes dos 70, quem falta precisa justificar. Depois, a ausência não tem consequência, e o título continua válido.

A longevidade esticou o alcance dessa regra. Pelo IBGE, uma mulher que chega aos 80, dez anos depois de dispensada, ainda tem em média 9,5 anos de vida pela frente. Um homem, 8,3. A dispensa cobre hoje uma fase inteira da vida cívica.

E é a fase em que mais se falta. No primeiro turno de 2022, cerca de 8,7 milhões de eleitores acima dos 70 não votaram, quase seis em cada dez da faixa, segundo levantamento da consultoria Data8 com dados do TSE. A abstenção geral daquele turno ficou perto de 20%.

Esta eleição marca os 30 anos da urna eletrônica, usada pela primeira vez em outubro de 1996. Ela trocou a cédula pelo teclado e levou a apuração para a mesma noite. Tudo isso acontece dentro da seção. Para chegar até lá, valem calçada, degrau e condução. A Justiça Eleitoral oferece transporte especial e transferência para seções acessíveis, mas o pedido do transporte venceu em 14 de setembro, três semanas antes do voto. A pesquisa Retratos do voto 70+, divulgada pelo Nexo nesta semana, aponta barreiras físicas entre os motivos da ausência.

Trinta anos de urna eletrônica encurtaram a apuração para uma noite. Não encurtaram a calçada até a seção.

A obrigação acabou aos 70. O trajeto continuou.

Um executivo dirá que abstenção de idoso é escolha, e escolha se respeita. Respeita-se. Mas escolha pressupõe caminho aberto, e parte dessa ausência, segundo a própria pesquisa, vem da barreira física.

Quem desenha produto, crédito ou plano de saúde conhece o defeito: um serviço impecável por dentro que não chega à porta do cliente de 80 anos.

Domingo, às 8h, a urna recebe todos da mesma forma. Depois dos 70, a diferença só aparece às 17h, quando ninguém cobra quem não veio.

Por José Henrique Azeredo, colunista do not journal.

Coluna assinada
José Henrique Azeredo
Investimentos, infraestrutura, turismo, governança e IA José Henrique Azeredo

José Henrique Azeredo é executivo, conselheiro, engenheiro civil e advogado especializado em M&A pelo Insper. É Diretor Institucional da RTSC Holding, conselheiro do Grupo Wish e vice-presidente de Financiamento de Projetos da Comissão de Infraestrutura da OAB-SP. Foi vice-presidente do Conselho de Administração da Braskem. Há mais de 20 anos atua em investimentos, governança, infraestrutura, turismo, negociação e inteligência artificial aplicada aos negócios.

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