O “CEO de MEI” não é piada: é o dono do próprio tempo
Com 13,76 milhões de MEIs e 45% usando IA, o autônomo da classe C redefine trabalho, dignidade e tempo, mas enfrenta riscos reais
Foto: Reprodução
Durante anos, “CEO de MEI” funcionou como deboche. O termo ridicularizava quem abria um CNPJ simples, faturava pouco e, ainda assim, se posicionava como empresário. O livro Brasil da maioria: 25 anos de classe C, de Renato Meirelles, ajuda a entender por que essa leitura está ficando insuficiente. A classe C sempre teve alta informalidade. O que mudou não foi só a quantidade de registros. Foi o significado simbólico do que antes se chamava de “bico”.
Meirelles registra essa virada com precisão. Um motoboy que ele entrevistou resume o espírito em uma frase: “Sei que isso aqui é um bico, mas pelo menos eu sou o dono do bico, né?”. Uma manicure que deixou o salão e passou a organizar a própria agenda via WhatsApp é ainda mais direta: “Meu problema não é trabalhar muito, meu problema é não conseguir escolher o horário de ser mãe, de ser filha, de ser gente.”. O ponto central não é só dinheiro. É controle do tempo e ausência de patrão.
Essa lógica explica por que o modelo tradicional das grandes empresas está perdendo atratividade. Hierarquias pesadas, controle de ponto, reuniões intermináveis e crescimento salarial lento competem mal com a possibilidade de organizar a agenda em torno da família, precificar o próprio tempo e converter esforço extra diretamente em renda. Os números mostram a escala do movimento. O Brasil tem 13,76 milhões de MEIs ativos. Em setembro de 2026, pequenos negócios (MEI, micro e pequenas) representaram 96,5% dos novos CNPJs abertos. Mais relevante, 92% dos MEIs estão efetivamente em atividade, o maior percentual da série histórica do Sebrae, 20 pontos acima de 2019. A parcela de quem empreende por necessidade caiu de 56% para 45% em dois anos. A maioria dos novos MEIs vem da CLT e está saindo por escolha, não apenas por falta de opção.
O modelo tem limitações reais que não podem ser apagadas. Uma parcela significativa atua em arranjos de pejotização, relações que se assemelham a emprego sem as proteções plenas da CLT, como FGTS, seguro-desemprego, 13º e férias regulares. A contribuição previdenciária reduzida (5% do salário mínimo) gera déficit atuarial e menor cobertura futura. O teto de faturamento (R$ 81 mil hoje, subindo para R$ 110 mil em 2027) e a restrição a um funcionário limitam o crescimento. A renda é mais instável: cerca de 70% dos MEIs dependem exclusivamente do negócio, e baixa rentabilidade ou falta de clientes continuam sendo os principais motivos de encerramento. Meirelles é cuidadoso nesse ponto. Ele recusa tanto a romantização quanto a visão reducionista de que tudo se resume a precarização. A classe C enxerga o lado B, imprevisibilidade, jornadas longas e menos rede de proteção, e, mesmo assim, em muitos casos prefere o modelo autônomo porque as vagas formais disponíveis pagam menos ou oferecem menos flexibilidade. Não por acaso, os autônomos aparecem como o segundo grupo mais realizado profissionalmente nas pesquisas que ele cita.
A inteligência artificial acelera exatamente a parte que as pessoas valorizam. Cerca de 45% dos MEIs já usam alguma ferramenta de IA. Não são softwares caros nem equipes técnicas. São ChatGPT, Gemini, Canva e WhatsApp Business. O que o WhatsApp e as redes sociais fizeram nos últimos anos, permitir que micro-negócios da periferia organizassem agenda, alcançassem clientes e se posicionassem com mais profissionalismo, a IA está multiplicando. Uma pessoa sozinha consegue produzir conteúdo, responder clientes com mais agilidade, montar orçamentos padronizados e estruturar a operação com uma velocidade que antes exigia mais gente ou mais horas. Isso libera tempo, que é o ativo central, e aumenta a capacidade de gerar receita.
O “CEO de MEI” que as redes ainda tratam como meme é, na prática, alguém que recuperou a capacidade de decidir o próprio destino. Como Meirelles mostra, não se trata apenas de cálculo econômico. É também uma reafirmação de dignidade e de controle sobre a própria vida, depois de anos em que o trabalho informal carregava estigma. A grande empresa que não entender essa mudança vai continuar perdendo talentos. O microempreendedor que usar IA para multiplicar o próprio tempo e a própria margem vai continuar crescendo, desde que tenha clareza dos riscos e das proteções que está abrindo mão.
A pergunta deixou de ser se o modelo antigo está ficando para trás. É o quanto cada um está disposto a ser dono do próprio tempo, com olhos abertos para os dois lados da moeda.
Por mim, queria dizer algo: Para essas pessoas, que acordam cedo, resolvem sozinhas o que antes dependia de uma estrutura inteira e ainda encontram tempo para a família, vai um reconhecimento simples: parabéns. Vocês estão construindo, no cotidiano, o modelo de trabalho que o Brasil ainda está aprendendo a enxergar.
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Ex-diretor global de inovação da AB InBev, liderou novos negócios, startups e P&D, conectando demandas da empresa a soluções do ecossistema. Participou de projetos como o Zé Delivery. É board member da MIT Sloan no Brasil e colunista da HSM. Engenheiro formado pela UFSCar, é doutorando em Engenharia de Software e Corporate Venture. Também leciona na FDC, Insper e StartSe.