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Quanto vale o futebol brasileiro sem as bets?

A MP das bets pode ter sido abrupta. Mas o pânico dos clubes revela um problema que nenhuma medida provisória criou: a dependência

Por Bruno Stefani • • 10 min de leitura
Jogador do Flamengo veste camisa com mensagem contra as bets, em meio ao debate sobre a proibição das apostas esportivas no Brasil. (Foto: Reprodução)

Jogador do Flamengo veste camisa com mensagem contra as bets, em meio ao debate sobre a proibição das apostas esportivas no Brasil. (Foto: Reprodução)

No dia 6 de outubro, os sites de apostas saíram do ar no Brasil. A Medida Provisória 1.394, publicada em 25 de setembro, proibiu a oferta, a exploração e a publicidade das apostas de quota fixa. E deu dez dias para que as marcas sumissem das camisas, dos estádios e das transmissões.

O Santos suspendeu seu contrato antes do prazo. O Botafogo tirou a patrocinadora dos uniformes de treino. Vinte e um clubes correram ao Supremo. O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, estimou um prejuízo de cerca de R$ 400 milhões só para o clube e de R$ 2,5 bilhões para o futebol brasileiro.

Diante de cifras assim, a pergunta do título parece coisa de planilha. Não é: ela é estratégica. O que está em jogo não é só quanto dinheiro sai, mas que tipo de futebol foi erguido em cima dele. E por que tantos dirigentes trataram um setor polêmico, sob cerco regulatório permanente, como se fosse chão firme.

O que os números dizem

Os números desmontam o catastrofismo. Em 2025, os patrocínios de casas de apostas renderam cerca de R$ 1 bilhão aos clubes da Série A. É muito dinheiro, mas equivale a 7,9% da receita total da elite.

Há clubes mais expostos que outros, é verdade. Ainda assim, seis times da primeira divisão já jogam sem casa de apostas no peito: Athletico-PR, Bahia, Coritiba, Internacional, Mirassol e Red Bull Bragantino. A Espanha baniu esse patrocínio das camisas em 2021, e a Itália proíbe publicidade de apostas desde 2019. O futebol de lá não acabou.

O dado que deveria preocupar é outro. Aquele bilhão corresponde a um terço da receita comercial dos clubes da Série A: R$ 1,03 bilhão de R$ 3,06 bilhões. O futebol brasileiro, portanto, não depende das bets para existir. Mas terceirizou para elas um terço da própria área comercial.

Quando um terço da receita comercial vem de um único setor, o clube não tem uma carteira de patrocinadores. Tem um cliente que pode ir embora a qualquer momento, por decisão própria ou de Brasília.

A dependência foi uma escolha

A reação dos clubes, no entanto, foi a de quem perdeu o chão. Vieram as petições ao Supremo, as projeções de perdas bilionárias e o alerta de que o veto empurrará apostadores para o mercado clandestino.

Parte da queixa é legítima. Uma atividade autorizada pela União, que pagou outorga e firmou contratos válidos, foi extinta por medida provisória, com dez dias para tirar as marcas de circulação. Nenhuma empresa séria gosta de ver a regra mudar no meio do jogo, e a forma da decisão merece crítica.

Mas vale lembrar como a Inglaterra fez. Lá, foram os próprios clubes da Premier League que decidiram, em 2023, tirar as bets da frente das camisas, com três anos de transição. Quando o prazo acabou, quase todos os afetados já tinham patrocinadores de outros setores. No Brasil, os clubes usaram os mesmos anos para o contrário: aprofundar a dependência e resistir a qualquer limite. O prazo curto de agora é, em parte, a conta de quem nunca quis se autorregular.

Também não dá para alegar surpresa. Desde a regulamentação, o setor viveu sob cerco: CPI no Senado, decisão do STF contra publicidade dirigida a crianças e adolescentes, projetos para restringir propaganda e um governo prometendo, em público, acabar com as apostas. Quem assinou contratos longos com uma indústria nessa situação conhecia o risco. Preferiu ignorá-lo porque o cheque era alto demais.

Na petição ao Supremo, o Botafogo descreveu essas receitas como "essenciais para o fomento do esporte nacional". Eis o problema. A receita de um único setor, polêmico e ameaçado, jamais deveria ter virado essencial.

E há um detalhe revelador. Ao pedir que os contratos valham até o fim do ano, o Sinafut, sindicato que reúne os clubes, argumentou que o prazo da MP coincide com a reta final das competições, momento de maior visibilidade das marcas. Traduzindo: o pedido é para que as bets sigam expostas justamente quando o torcedor está mais engajado. É a lógica do patrocinador vestida com a camisa do clube.

O mesmo filme, com outro patrocinador

Nada disso é novo. O futebol brasileiro repete o mesmo roteiro há décadas e só troca a fonte do dinheiro. Primeiro, os direitos de TV, antecipados sem cerimônia. Depois, a venda de atletas, que transformou a base em caixa eletrônico. Agora, as apostas.

O enredo é sempre igual: uma receita cresce rápido, os custos sobem atrás dela e o extraordinário passa a ser tratado como permanente. Salários e parcelas de contratações são compromissos de anos. Patrocínio de um setor controverso, não.

Receita fácil costuma criar dependência difícil. O dinheiro das bets chegou rápido, em volume alto e sem exigir quase nada em troca: nenhuma inovação comercial, nenhum conhecimento novo sobre o torcedor. Bastava vender o peito da camisa a quem pagasse mais, e as bets pagavam mais que qualquer um. Os clubes não precisaram aprender a vender. Só precisaram dizer sim.

Há ainda o que os dirigentes preferem não encarar. As bets não são um anunciante qualquer: o negócio delas depende de o apostador perder. Em agosto de 2024, segundo o Banco Central, beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões a casas de apostas via Pix, cerca de um quinto do que o programa pagou no mês.

Quando a camisa, o intervalo da transmissão, o ex-jogador e o influenciador repetem a mesma mensagem, apostar deixa de parecer risco e passa a parecer parte de torcer. Os clubes emprestaram a camisa, o objeto mais sagrado da relação com o torcedor, para vender a ele um produto desenhado para que ele perca. Isso não é detalhe moral. É erro estratégico de marca.

O que os clubes não quiseram construir

A acomodação foi geral. O Brasileirão virou Brasileirão Betano, a Copa do Brasil virou Copa Betano do Brasil e a Fonte Nova passou a se chamar Casa de Apostas Arena Fonte Nova. Quando um único setor batiza o campeonato, o estádio e a camisa, ninguém mais se sente obrigado a procurar alternativa.

E, no entanto, o futebol brasileiro vale muito mais que as bets. Tem ativos que nenhuma casa de apostas possui: torcida, identidade, audiência semanal, história, estádio, formação de atletas, pertencimento. O paradoxo é que os clubes monetizam mal quase tudo isso.

Têm milhões de torcedores e sabem pouco sobre eles. Produzem emoção toda semana e capturam pouco valor recorrente dessa emoção. Seus programas de sócio alcançam uma fração mínima das torcidas. Vendem caro o peito da camisa, mas exploram pouco o relacionamento direto, a mídia própria, os dados, a experiência no estádio, o licenciamento e o mercado internacional.

Seguem vendendo espaço como nos anos 1990: camisa, placa, backdrop e post patrocinado. As marcas de hoje querem comunidade, dados, conteúdo, ativação, reputação e conversão. Um banco não quer só o logotipo na manga: quer abrir contas entre torcedores. Uma varejista quer vender para eles. Quem souber empacotar isso vai repor boa parte do dinheiro perdido. Quem só procurar o próximo setor disposto a pagar caro pelo peito da camisa, seja banco, varejo, energia ou tecnologia, vai apenas marcar a data da próxima crise.

A agenda não tem mistério. Diversificar receitas, para que nenhum patrocinador pese a ponto de abalar o clube quando sai. Profissionalizar a área comercial, que em muitos clubes ainda funciona como balcão de anúncios. Ajustar custos à receita real, e não à sonhada, o que exige coragem para negar contratações que a torcida pede e o caixa não comporta. E escolher patrocinadores com o cuidado com que se escolhe um treinador, porque dinheiro tem origem, reputação e consequência.

O clube que se apresenta como patrimônio cultural de uma comunidade não pode fingir que não importa como essa comunidade está sendo monetizada. Nada disso depende de Brasília ou do Supremo. Depende de dirigentes.

Um teste de maturidade

O alerta sobre o mercado clandestino merece atenção, mas é tarefa de fiscalização do Estado, não plano de negócios. Clube não existe para arbitrar a política de apostas do país. Existe para não quebrar quando um patrocinador vai embora.

Seja qual for o destino da MP, suspensa pelo Supremo, convertida em lei ou derrubada no Congresso, a lição continua de pé. Mesmo que a medida caia, ficou provado que o setor que mais patrocina o futebol brasileiro pode sair de campo em dez dias. Se uma única categoria de patrocinador desaparece e o modelo entra em pânico, o problema está na proibição ou na dependência?

A crise das bets é um teste de maturidade. Se os clubes responderem apenas com manifesto, liminar e vitimismo, sairão menores, e com a próxima dependência já contratada. Se usarem o choque para reconstruir sua matriz de receitas, sairão mais fortes do que entraram.

O resultado vai aparecer nos orçamentos de 2027. Quem fechar as contas cortando custos e abrindo receitas novas terá entendido o recado. Quem fechar com antecipações, empréstimos e a esperança de uma nova bonança terá apenas trocado de dependência. E não vale a desculpa de sempre, a pressão da arquibancada por reforços. Dirigente que gasta para agradar a torcida com dinheiro que pode sumir não está servindo ao clube. Está servindo ao próprio mandato.

Um bom começo seria a transparência. Cada clube poderia dizer ao seu torcedor quanto do orçamento dependia das apostas, como pretende repor esse dinheiro e o que vai cortar se não conseguir. Quem vende a camisa como patrimônio coletivo deve ao coletivo essa prestação de contas. Os conselhos que aprovaram esses orçamentos sem perguntar o que aconteceria se o dinheiro sumisse também devem explicações.

Quanto vale o futebol brasileiro sem as bets? No curto prazo, vale menos, sem dúvida. Mas a pergunta que deveria tirar o sono dos dirigentes é outra: quanto ele valeria hoje se, nos anos de bonança, alguém tivesse usado o dinheiro fácil para construir um negócio de verdade?

Dinheiro fácil não substitui modelo de negócio. E nenhuma liminar devolve o tempo perdido.

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Coluna assinada
Bruno Stefani
Inovação, IA e Novos Negócios Bruno Stefani

Ex-diretor global de inovação da AB InBev, liderou novos negócios, startups e P&D, conectando demandas da empresa a soluções do ecossistema. Participou de projetos como o Zé Delivery. É board member da MIT Sloan no Brasil e colunista da HSM. Engenheiro formado pela UFSCar, é doutorando em Engenharia de Software e Corporate Venture. Também leciona na FDC, Insper e StartSe.

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