Nunca tivemos tantas ferramentas para nos comunicar e tanta dificuldade para sermos compreendidos
Com IA escrevendo e revisando por nós, o diferencial passa a ser construir entendimento e gerar confiança
(Imagem: Reprodução)
Outro dia fiquei pensando em quantas conversas uma pessoa consegue ter ao mesmo tempo hoje. Respondemos mensagens no WhatsApp enquanto participamos de reuniões, recebemos e-mails enquanto ouvimos áudios, comentamos publicações, reagimos a stories e ainda encontramos tempo para compartilhar o que estamos fazendo.
Estamos disponíveis para conversar praticamente o dia inteiro, mas será que estamos realmente conversando?
A tecnologia transformou a maneira como trabalhamos, nos relacionamos e transmitimos informações. Hoje, temos ferramentas que escrevem por nós, organizam nossos pensamentos, resumem reuniões e até nos ajudam a encontrar as palavras certas para conversas que não sabemos muito bem como começar.
Aliás, este próprio artigo é um exemplo disso. Enquanto escrevia, discuti algumas ideias com a inteligência artificial, pedi correções gramaticais e até quis saber o que ela achava de determinados argumentos. Confesso que, em alguns momentos, me peguei mais inclinada a seguir as sugestões da ferramenta do que a confiar na minha própria percepção sobre o assunto.
E foi durante esse processo que comecei a pensar ainda mais na questão que queria trazer aqui.
Estamos cada vez mais disponíveis, conectados e cercados de possibilidades para nos comunicar, mas será que toda essa facilidade está realmente nos tornando melhores comunicadores?
Eu lidero uma empresa que trabalha diariamente com pessoas, marcas, influenciadores e equipes com diferentes responsabilidades, expectativas e personalidades. A comunicação faz parte do meu negócio e, depois de tantos anos trabalhando com isso, uma coisa continua me chamando atenção: muitos dos problemas que enfrentamos nas empresas, mesmo aqueles que parecem operacionais, começam em alguma falha de comunicação.
Eu sou uma pessoa que gosta de velocidade. Gosto de agilidade, de respostas rápidas, de resolver as coisas e seguir em frente. E, dentro de uma empresa, considero isso extremamente importante. A tecnologia trouxe uma possibilidade extraordinária de acompanhar processos, encurtar distâncias, acelerar decisões e tornar o trabalho muito mais eficiente.
Inclusive, acho que essa facilidade também tornou mais evidentes algumas dificuldades profissionais. Quando temos ferramentas que permitem uma comunicação praticamente instantânea, a ausência de retorno, a falta de disponibilidade ou a demora recorrente para resolver questões simples passam a chamar ainda mais atenção.
Mas a quantidade de interações que precisamos administrar diariamente também impressiona. Um levantamento da Microsoft, publicado em 2025, identificou que, entre os profissionais com maior volume de notificações, as interrupções por mensagens, e-mails e reuniões aconteciam, em média, a cada dois minutos durante o expediente.
É muita informação circulando ao mesmo tempo. E, embora eu valorize a agilidade, acho importante pensar se estamos conseguindo acompanhar esse ritmo com a mesma capacidade de atenção e compreensão.
Porque ter acesso a todas essas ferramentas não significa necessariamente saber utilizá-las para construir uma comunicação eficiente.
Quantas vezes saímos de uma reunião com a sensação de que tudo ficou perfeitamente alinhado e, dias depois, percebemos que cada pessoa entendeu uma coisa diferente? Ou enviamos uma mensagem que parecia muito clara e recebemos uma resposta que não tinha absolutamente nada a ver com o que estávamos tentando dizer?
Eu mesma já vivi situações em que precisei voltar a uma conversa e perceber que aquilo que era óbvio para mim não tinha sido tão óbvio para a outra pessoa.
Acho que parte dessa dificuldade está no fato de que nós sabemos exatamente o que estamos pensando quando falamos, mas quem está ouvindo não tem acesso a tudo o que existe por trás das nossas palavras. Cada pessoa recebe uma informação com suas próprias referências, experiências e expectativas, e nem sempre percebemos o quanto isso interfere na interpretação de uma mensagem.
E isso tem um custo enorme para as empresas. Um conflito mal administrado pode terminar na saída de um bom profissional, uma negociação conduzida de maneira equivocada pode custar um cliente e uma informação transmitida sem clareza pode comprometer o trabalho de várias pessoas.
Uma pesquisa da Grammarly, publicada em 2024, mostrou que 41% dos profissionais entrevistados associavam a má comunicação à perda de produtividade, enquanto 31% relatavam desgaste nos relacionamentos profissionais. São consequências que muitas vezes aparecem nos resultados de uma empresa, mas nem sempre são reconhecidas como problemas de comunicação.
Existe também uma responsabilidade dos dois lados. Quem comunica precisa se preocupar em ser claro, mas quem recebe precisa estar disposto a compreender. Muitas vezes, escutamos uma frase e já começamos a construir uma resposta antes mesmo de entender o raciocínio completo.
E agora temos uma ferramenta extraordinária para nos ajudar a organizar o que queremos dizer: a inteligência artificial.
Hoje, alguém pode recorrer à IA para estruturar um argumento, preparar uma apresentação, escrever um feedback ou até desenvolver o roteiro de um vídeo. E acho isso maravilhoso, porque permite que pessoas que antes tinham dificuldade para colocar seus pensamentos em palavras consigam se expressar com muito mais clareza.
Mas tenho observado uma situação que merece atenção. Estamos ficando cada vez mais confortáveis com a comunicação que podemos preparar, revisar e editar, enquanto algumas pessoas encontram dificuldades justamente nas situações em que precisam conversar sem esse apoio.
Quando estamos diante de outra pessoa, não temos controle sobre tudo o que ela vai dizer, sobre como vai interpretar nossas palavras ou sobre as perguntas que fará. Uma conversa exige atenção, capacidade de improvisar, disposição para ouvir e, muitas vezes, coragem para sustentar um ponto de vista mesmo diante de uma reação inesperada.
Isso aparece em reuniões, negociações, feedbacks e até nas relações pessoais. Podemos passar muito tempo escolhendo as palavras de uma mensagem e, ainda assim, não conseguir aprofundar aquele mesmo assunto quando estamos frente a frente com alguém.
Também percebo isso na maneira como as pessoas se expressam dentro e fora das redes sociais. Conheço profissionais entre 30 e 50 anos que conduzem reuniões e negociações com enorme naturalidade, mas encontram dificuldade quando precisam gravar um vídeo ou compartilhar uma opinião publicamente. Ao mesmo tempo, vejo pessoas muito mais jovens que conseguem se expressar online com uma segurança impressionante, mas que nem sempre demonstram a mesma desenvoltura em uma conversa presencial mais difícil.
Claro que existem exceções, mas isso me faz pensar em como estamos desenvolvendo habilidades de comunicação muito específicas para determinados ambientes.
E existe ainda outro comportamento que observo nas redes sociais: a necessidade de ter uma opinião imediata a respeito de praticamente tudo.
Parece que estamos cada vez mais preparados para defender aquilo que pensamos e cada vez menos dispostos a considerar a possibilidade de estarmos errados.
Quando uma conversa se transforma em uma disputa para provar quem tem razão, fica muito mais difícil compreender o outro. E nem toda conversa precisa terminar em concordância.
Se todos teremos acesso a ferramentas capazes de produzir textos, apresentações e discursos bem estruturados, o que vai diferenciar as pessoas que realmente conseguem se comunicar?
Eu acredito que será cada vez mais a capacidade de construir entendimento, gerar confiança, administrar conflitos e desenvolver relações.
A inteligência artificial pode ajudar alguém a escrever um feedback com as palavras certas e o tom adequado, mas a responsabilidade de conduzir aquela conversa, perceber a reação do outro e lidar com o que acontece depois continua sendo nossa.
Não acredito que precisamos de menos tecnologia. Pelo contrário, acredito que ainda temos muito a ganhar com tudo o que ela pode nos proporcionar.
Mas talvez precisemos dedicar à nossa capacidade de compreender as pessoas a mesma atenção que dedicamos ao desenvolvimento de ferramentas para nos comunicar com elas.
Porque, no final, de pouco adianta termos acesso às ferramentas mais sofisticadas do mundo se continuarmos saindo de conversas com a certeza de que fomos claros, enquanto a pessoa do outro lado sai com uma compreensão completamente diferente.
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Empresária há mais de uma década, Isabela Soller é fundadora e CEO do Grupo Soller, especializado em marketing de influência, gestão de carreiras de criadores e projetos estratégicos para grandes marcas. Formada em Direito pela PUC-Campinas, lidera mais de 50 profissionais. Palestrante, mentora e apresentadora do podcast "Vale o Post?", conecta marcas a grandes nomes do empreendedorismo e compartilha sua visão sobre negócios, liderança e as transformações do mercado da influência.