A vida que montamos com os fragmentos dos outros
Ao reunir hábitos de pessoas distintas numa única referência, podemos exigir de nós uma rotina que ninguém vive por inteiro
(Foto: @manuelacit)
Na mesma tela, uma pessoa corre antes do trabalho, outra prepara a comida da semana e uma terceira encontra tempo para treinar no fim do dia. Cada publicação pertence a uma história, mas nossa percepção pode reuni-las numa existência que parece comportar tudo. Observo nessa montagem uma forma de comparação que ultrapassa o desejo de fazer o que alguém faz. Passamos a nos medir por uma combinação de rotinas, recursos e resultados cujas condições desconhecemos.
O cotidiano de quem acompanha entra nessa conta com suas interrupções, seus deslocamentos e as tarefas que não chegam a ser vistas. A noite mal dormida, o tempo dedicado a um familiar, o trabalho que se estendeu além do previsto participam das possibilidades daquele dia, mas podem desaparecer quando avaliamos o que conseguimos fazer. Diante da soma das publicações, reconhecemos sobretudo o que faltou.
Os dados ajudam a recolocar essa impressão em perspectiva. Segundo o Vigitel, do Ministério da Saúde, 42,3% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal alcançavam, em 2024, o equivalente a pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada no lazer. Em 2009, eram 30,3%. Houve crescimento nesse período, sem que a prática nesse patamar se tornasse uma condição de todos. O indicador também não autoriza classificar os demais como sedentários, pois parte da atividade pode acontecer no trabalho e nos deslocamentos.
A visibilidade, por sua vez, segue outra lógica. Quem publica cada treino pode ocupar nossa atenção com frequência, enquanto alguém que se movimenta sem registrar permanece fora desse campo. Uma imagem não informa quanto tempo durou a prática, como ela se distribui ao longo dos meses ou quais circunstâncias permitiram realizá-la. Ainda assim, podemos atribuir continuidade ao que vimos e concluir que apenas nós temos dificuldade para manter uma rotina.
Interessa-me o efeito dessa conclusão sobre a maneira como compreendemos a própria vida. Quando a dificuldade é interpretada exclusivamente como falta de disciplina, deixa de haver espaço para examinar as condições em que as escolhas acontecem. Tempo, renda, acesso e responsabilidades de cuidado passam a ser tratados como detalhes, embora possam definir se uma orientação será viável.
Reconhecer essas circunstâncias exige mais do que acrescentar uma ressalva aos conselhos sobre saúde. Exige aceitar que uma mesma recomendação encontra pessoas com possibilidades distintas e que o esforço nem sempre se torna visível no resultado. Alguém pode estar tentando reorganizar o dia, negociar ajuda ou recuperar disposição sem que esse movimento se pareça com aquilo que circula na tela.
Penso também na flexibilidade psíquica necessária para rever as certezas que formamos a partir desse repertório. Podemos ter aprendido a associar saúde a determinada aparência, constância a registros frequentes e compromisso a uma rotina sem interrupções. Essas associações merecem ser examinadas quando nos impedem de perceber outras formas de cuidado ou quando transformam qualquer mudança de ritmo numa prova de fracasso.
A relação com o corpo se estreita quando só conseguimos escutá-lo por meio dessas medidas. Em vez de perceber o que sentimos durante uma atividade, procuramos saber se fizemos o suficiente diante do desempenho alheio. O cansaço pode ser recebido como uma acusação, e a pausa, como perda de mérito. Nesse estado de avaliação, torna-se difícil distinguir o desejo de praticar da necessidade de corresponder.
Não precisamos conhecer toda a história de quem publica para admitir que ela continua além do enquadramento. Essa consciência pode nos ajudar a suspender conclusões sobre a facilidade dos outros e sobre nossa suposta incapacidade. Há informações que não temos, tanto sobre o resultado que admiramos quanto sobre o esforço que o antecedeu.
Ao voltar ao próprio cotidiano, podemos então formular perguntas que considerem o que está ao nosso alcance, os obstáculos que precisam de apoio e as mudanças que desejamos sustentar. Uma rotina se constrói também por ajustes, negociações e tentativas que não rendem conteúdo. Dar atenção a esse processo permite avaliar nossa experiência com mais elementos do que aqueles reunidos durante alguns minutos diante da tela.
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Maria Klien é psicóloga com foco no estudo e tratamento de distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua prática clínica combina métodos tradicionais e abordagens complementares, adaptadas às necessidades individuais. Como empreendedora, busca ampliar o acesso a recursos terapêuticos, promovendo ferramentas que auxiliam no equilíbrio emocional e no enfrentamento de questões que impactam o bem-estar psicológico.