A autonomia não começa no clique: ela depende também daquilo que tivemos a oportunidade de conhecer
Nossas preferências nascem de encontros, influências e oportunidades que nem sempre percebemos
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Ao abrir uma plataforma para escolher um filme, encontramos uma seleção. Alguns títulos aparecem diante de nós; outros nem chegam a entrar na conversa. Costumamos pensar na autonomia a partir da decisão que tomamos, mas ela também envolve o que tivemos a oportunidade de conhecer. É nessa etapa anterior à escolha que me detenho.
Uma recomendação pode ampliar o acesso a uma obra, despertar curiosidade e nos levar além das referências que já possuímos. O limite aparece quando confundimos o conjunto de sugestões com a extensão do que seria capaz de nos interessar. Aquilo que ficou de fora não foi necessariamente recusado. Talvez sequer tenha tido a chance de provocar uma reação.
A formação do gosto sempre envolveu algum tipo de mediação. Família, escola, publicidade e grupos de convivência participam do que aprendemos a apreciar ou a rejeitar. Carregamos essas relações quando dizemos “eu prefiro”. Não imagino uma autonomia livre de influências.
Interessa-me a possibilidade de reconhecê-las, compreender o lugar que ocupam e decidir quais ainda desejamos acolher. Inclusive para agradecer por encontros que dificilmente teriam acontecido sem a indicação de outra pessoa.
Nas sugestões que recebemos pelas telas, essa negociação pode passar despercebida. O que nos é apresentado parece tão próximo dos nossos hábitos que acabamos recebendo a seleção como confirmação de quem somos. Mas há uma questão de tempo nessa correspondência. Uma escolha feita ontem conta alguma coisa sobre a nossa história, sem encerrar o que ainda poderá nos afetar.
Um livro abandonado anos atrás encontra outro leitor quando voltamos a ele depois de certas experiências. Uma música perde importância. O interesse por um assunto aparece em uma conversa, sem relação aparente com o que procurávamos até então. Pensar o gosto apenas pela continuidade das escolhas deixa pouco lugar para essas mudanças.
Sob a perspectiva da psicologia, considero essa abertura parte do trabalho de reconhecer os próprios desejos. Às vezes, queremos um objeto pelo pertencimento que ele parece oferecer. Em outras, gostamos de algo que contraria a imagem construída a nosso respeito. Perceber essas diferenças envolve tolerar algum desconforto.
Podemos descobrir que sustentávamos uma preferência para preservar uma posição, ou que já não desejamos aquilo que tanto nos empenhamos em conseguir.
Nós também restringimos essa liberdade quando exigimos coerência de cada preferência. Mudar de ideia fica mais difícil se isso nos coloca na posição de ter de dar explicações.
Há também uma pressão para fazer do gosto uma prova de distinção. Cada livro, viagem ou filme precisa dizer algo sobre a nossa inteligência. Essa exigência transforma o repertório em apresentação pessoal e pode nos afastar da experiência que pretendíamos valorizar. Apreciar o que muita gente aprecia cabe perfeitamente em uma escolha refletida. A popularidade de uma obra, por si só, esclarece pouco sobre a relação que alguém estabelece com ela.
Também por isso me parece necessário preservar situações em que a opinião possa demorar. Uma obra incompreendida nos deixa sem a segurança de uma resposta. Permanecer ali por algum tempo permite que uma associação apareça, que uma conversa modifique a impressão, que o sentido se forme depois. Nem sempre haverá encantamento. Ainda assim, a experiência terá incluído a possibilidade de rever o primeiro julgamento.
Continuo a ver utilidade nas recomendações e não espero uma vida sem mediações. Quero, porém, conservar a possibilidade de não me reconhecer inteiramente nelas. Uma mudança pode começar muito antes de se tornar uma preferência que eu consiga nomear.
Maria Klien é psicóloga com foco no estudo e tratamento de distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua prática clínica combina métodos tradicionais e abordagens complementares, adaptadas às necessidades individuais. Como empreendedora, busca ampliar o acesso a recursos terapêuticos, promovendo ferramentas que auxiliam no equilíbrio emocional e no enfrentamento de questões que impactam o bem-estar psicológico.