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Eve, da Embraer, tem 2.700 carros voadores na fila, mas só 100 têm contrato que obriga a compra: o resto são cartas de intenção

No setor aéreo, interesse por escrito não é pedido, e a diferença define quem carrega o risco enquanto a aeronave não voa

Por José Henrique Azeredo • • 2 min de leitura
(Imagem: Embraer)

(Imagem: Embraer)

A carta de intenção sustenta o anúncio. O contrato sustenta a fábrica.

A Eve, da Embraer, tem fila para uma aeronave que ainda não foi certificada. É o eVTOL, aeronave elétrica de pouso e decolagem vertical que o mercado apelidou de carro voador. Na apresentação de resultados do segundo trimestre, a carteira somava cerca de 2.700 aeronaves, avaliadas em US$ 13,5 bilhões a preço de tabela. Em contrato que obriga a compra estavam 100 aeronaves e US$ 500 milhões. Pelos números da própria empresa, menos de 4% do valor anunciado tem comprador obrigado.

Carteira, ali, quer dizer fila de interessados.

Fui conferir o relatório anual que a Eve entrega à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos. Nele, a empresa explica que os demais acordos são cartas de intenção sem força vinculante. A obrigação do cliente só nasce quando os termos essenciais forem acertados, a critério de cada parte, em contrato definitivo. O preço também não está fechado: a Eve diz que não divulga o valor de cada negócio e usa a tabela como referência. No mesmo documento, lista entre os riscos a possibilidade de esses pedidos serem cancelados, modificados ou adiados.

Na aviação, a encomenda começa no contrato assinado. Antes dele, existe apenas interesse por escrito.

Um analista dirá que ninguém se engana com isso. A Eve escreve “não vinculante” nos documentos e lembra que cartas de intenção são prática habitual do setor. A ressalva está lá, de fato. Só que a prática invocada é a do setor, e não a da controladora: em 23 de outubro, a Embraer anunciou carteira recorde de US$ 35,7 bilhões, formada apenas por pedidos firmes, e informou à parte os direitos e as opções de compra. A subsidiária herdou o vocabulário e trocou a régua.

Para quem avalia a companhia, o calendário pesa mais que o total. Johann Bordais, presidente-executivo da Eve, disse ao site americano Axios, em outubro, que a certificação deve sair em dezembro de 2028 e que a empresa tem recursos para chegar até lá. Até essa data, cada carta funciona como uma opção nas mãos do cliente. Se a aeronave chegar no prazo e no preço, ele assina o contrato. Se atrasar, nada o prende. O risco do atraso fica com o fabricante e com quem comprou a ação na bolsa.

As 100 aeronaves sob contrato foram encomendadas por dois clientes: a Revo, operadora de helicópteros em São Paulo, e a AirX, no Japão.

As outras esperam pela mesma data que a fábrica.

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Coluna assinada
José Henrique Azeredo
Investimentos, infraestrutura, turismo, governança e IA José Henrique Azeredo

José Henrique Azeredo é executivo, conselheiro, engenheiro civil e advogado especializado em M&A pelo Insper. É Diretor Institucional da RTSC Holding, conselheiro do Grupo Wish e vice-presidente de Financiamento de Projetos da Comissão de Infraestrutura da OAB-SP. Foi vice-presidente do Conselho de Administração da Braskem. Há mais de 20 anos atua em investimentos, governança, infraestrutura, turismo, negociação e inteligência artificial aplicada aos negócios.

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