O autocuidado também passa pela capacidade de criar limites
Ferramentas de autoexclusão das apostas revelam uma mudança importante na forma como compreendemos a saúde mental.
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Durante muito tempo, aprendemos a associar autocontrole à ideia de força individual. Crescemos ouvindo que bastaria ter disciplina, determinação ou resistência suficiente para evitar excessos. No entanto, a prática clínica me mostrou algo diferente. Em muitos momentos, cuidar de si não significa resistir sozinho. Significa reconhecer limites e construir recursos capazes de proteger aquilo que possui valor.
Tenho observado com interesse o debate em torno das plataformas de autoexclusão das apostas esportivas. Mais de meio milhão de brasileiros já aderiram à ferramenta que permite bloquear, em um único procedimento, todas as casas autorizadas vinculadas ao próprio CPF. Para alguns, trata-se apenas de uma medida administrativa. Para mim, esse movimento representa algo maior. Vejo nele um exemplo de como o cuidado psicológico pode se expressar por meio da criação consciente de barreiras.
Existe uma crença difundida de que a liberdade consiste em ter acesso irrestrito a tudo. Entretanto, a maturidade emocional nos ensina que a liberdade também se manifesta na capacidade de estabelecer fronteiras. Não somos definidos apenas pelas escolhas que fazemos, mas também pelos limites que decidimos criar para preservar nossa integridade.
O comportamento compulsivo raramente está relacionado apenas ao objeto da compulsão. A aposta, o álcool, as compras ou qualquer outro hábito repetitivo costumam ser caminhos encontrados pelo psiquismo para aliviar tensões, silenciar desconfortos ou preencher vazios que muitas vezes não conseguem ser nomeados. Por isso, concentrar toda a discussão apenas no comportamento em si pode nos impedir de compreender o sofrimento que existe por trás dele.
O cérebro humano possui mecanismos de recompensa que respondem intensamente à expectativa. Nem sempre é o resultado que sustenta uma repetição. Muitas vezes, é a possibilidade do resultado. A esperança de recuperar perdas, a fantasia de uma mudança repentina ou a promessa de uma satisfação futura podem manter um indivíduo preso em ciclos que escapam da própria vontade consciente.
Por essa razão, considero importante ampliar a maneira como enxergamos o autocuidado. Nem toda proteção nasce da ausência de vulnerabilidade. Algumas das decisões mais responsáveis surgem justamente quando reconhecemos que, sozinhos, talvez seja mais difícil interromper determinados padrões. Criar barreiras, limitar acessos e pedir ajuda não representam fracasso. Representam consciência.
Os dados divulgados pelo Governo Federal mostram que muitos usuários da plataforma de autoexclusão relatam perda de controle e impactos emocionais associados às apostas. Esses números, no entanto, não devem ser lidos apenas como estatísticas. Eles representam histórias humanas. Revelam pessoas que, em algum momento, perceberam que precisavam de uma pausa. E existe algo profundamente significativo nessa capacidade de dizer a si mesmo que é hora de interromper.
Vivemos em uma sociedade que incentiva a disponibilidade permanente, a resposta imediata e a gratificação constante. Talvez por isso tenha se tornado tão difícil aceitar que nem tudo precisa estar ao nosso alcance. Em alguns casos, preservar a saúde mental exige exatamente o contrário. Exige desacelerar, renunciar e construir espaços de silêncio entre o impulso e a ação.
Também considero importante lembrar que ninguém precisa enfrentar esse processo sozinho. O Sistema Único de Saúde (SUS) dispõe de estruturas de acolhimento por meio das Unidades Básicas de Saúde, dos Centros de Atenção Psicossocial e de outros serviços especializados. O sofrimento emocional não deve ser tratado como uma falha de caráter. Se trata de uma experiência humana que merece escuta e cuidado.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que a saúde psíquica não é construída pela ausência de fragilidades. Ela nasce da relação que desenvolvemos com elas. E talvez uma das formas mais maduras de autocuidado seja justamente reconhecer quando é necessário colocar uma distância entre nós e aquilo que deixou de estar sob nosso controle.
Maria Klien é psicóloga com foco no estudo e tratamento de distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua prática clínica combina métodos tradicionais e abordagens complementares, adaptadas às necessidades individuais. Como empreendedora, busca ampliar o acesso a recursos terapêuticos, promovendo ferramentas que auxiliam no equilíbrio emocional e no enfrentamento de questões que impactam o bem-estar psicológico.