O resgate (extra)ordinário dos valores familiares
A "instituição família" é constantemente alvejada com data certa para morrer.
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A cada década, alguém anuncia o seu fim com uma nova leva de números preocupantes, prevendo que ela será substituída pelo individualismo, pelo adiamento indefinido e pela autossuficiência que dispensa companhia. Há uma certa elite intelectual que parece quase torcer por esse fim, tratando a família tradicional como um fóssil opressor que deveria ceder espaço a arranjos puramente fluidos. Os dados mais recentes, porém, vindos de instituições que não têm nenhum interesse em embelezar a realidade, sugerem algo mais interessante do que uma simples sobrevida: em pelo menos três frentes ao mesmo tempo, fé, casamento e o instinto de proteção entre as pessoas que se amam, a maré parece ter virado.
Comece pelo dado mais surpreendente, porque ele quebra um padrão que durou um quarto de século. Desde o ano 2000, mulheres americanas de 18 a 29 anos sempre foram mais religiosas do que homens da mesma idade, às vezes por até 16 pontos de diferença. Em abril de 2026, o Gallup mostrou que esse padrão acabou de se inverter 1. Entre 2022 e 2025, a proporção de homens jovens que dizem que a religião é "muito importante" em suas vidas saltou de 28% para 42%, enquanto a das mulheres da mesma idade ficou praticamente parada, em torno de 29%. A frequência a cultos entre esses homens subiu sete pontos no mesmo período, para 40%, o nível mais alto desde 2012. Não é um arredondamento de pesquisa, mas a reversão de um padrão que atravessou cinco eleições presidenciais sem se mover, e que se moveu na direção oposta à que qualquer um esperaria.
Esse salto masculino não é um episódio isolado. Ele aparece ao lado de um movimento mais amplo e mais lento, medido pelo Pew Research Center: a longa curva de secularização americana, que vinha caindo sem pausa desde os anos 1990, parou de se mexer 2. Desde 2020, a fração de americanos que se identifica com alguma religião está estável em torno de 70%. Os "nones", que quase dobraram entre 2007 e 2022, saltando de 16% para 31% da população, também pararam de crescer, hoje em 29%. Depois de cinco décadas de erosão contínua, a secularização fez uma pausa, e é nos homens jovens que essa pausa virou, de fato, reversão.
Se a fé está voltando a ganhar espaço, o casamento nunca chegou a perdê-lo de verdade, apenas mudou de ritmo. Pergunte a jovens americanos solteiros, entre 18 e 34 anos, se pretendem se casar um dia: 69% dizem que sim, e só 8% dizem que não, segundo o Pew 3. O desejo pela família segue praticamente intacto. O que mudou foi o momento em que ele se realiza, tratado hoje com mais seriedade e intenção. Segundo o Census Bureau, a idade média do primeiro casamento chegou a 30 anos para os homens e 28 para as mulheres em 2024, o maior nível já registrado desde que essa série existe, contra 22 e 20 anos em 1960 4. E quando o casamento acontece, ele dura mais: a taxa de divórcio medida pelo CDC está em 2,4 por mil habitantes, a mais baixa do período recente coberto pela série oficial 5.
Fé mais firme, casamento mais tardio e mais duradouro: falta ainda um terceiro fio para fechar esse desenho, e ele aparece justamente onde a revolução dos costumes foi mais completa. Uma pesquisa do Institute for Family Studies mostra que, em praticamente tudo que envolve papéis dentro do casal, dividir a conta, dividir as tarefas domésticas, dividir a responsabilidade financeira, a geração mais jovem pensa de forma mais igualitária do que qualquer uma anterior. Mas sobra uma expectativa que atravessa até as diferenças ideológicas mais profundas entre eles: mais de 70% dos homens jovens dizem que o homem deve proteger a mulher, e uma proporção parecida de mulheres concorda, com só 26% delas dizendo que essa proteção é desnecessária 6. É como se, em meio a uma reformulação completa das regras do namoro, um único instinto tivesse sido preservado de propósito, quase por reflexo, porque continua funcionando.
Há algo nesse conjunto que lembra menos uma revolução repentina do que a redescoberta de algo antigo, o tipo de elegância e decoro que gerações antes da nossa souberam cultivar e que uma cultura acelerada quase apagou: o cortejo com intenção, o casamento como compromisso a ser construído com calma, a proteção como gesto natural entre quem se ama, a fé como estrutura para atravessar a vida. Não é nostalgia vazia por um passado idealizado, mas o reconhecimento prático, medido em pesquisa após pesquisa, de que essas formas antigas de organizar a vida em comum continuam sendo o que a maioria dos jovens, no fundo, ainda quer para si.
Essa mesma fome, medida a quilômetros de distância em pesquisa de opinião, apareceu de um jeito muito mais pessoal e mais próximo para uma das autoras deste texto. Neste ano, ao lado da própria família, ela começou a publicar um quadro chamado (extra)ordinário: conversas de mesa de almoço sobre namoro com intenção, fé e a construção de uma família saudável. Em três meses, o projeto reuniu mais de 290 mil seguidores e 45 milhões de visualizações, e trouxe consigo mensagens de jovens que cresceram sem referência de família dizendo que voltaram a desejar uma, de pais afirmando que reencontraram ali um modelo de conversa com os próprios filhos, e de gente que havia desistido do casamento, ou de Deus, contando que voltou a considerar os dois.
O que essas mensagens sugerem, e o que os números confirmam de outro ângulo, é que existe uma fome gigantesca, não de polêmica ou de perfeição estética, mas de referência, de pertencimento e de propósito. Essa fome tem uma razão biológica e psicológica concreta. Grande parte dos problemas de saúde mental contemporâneos, da epidemia de depressão ao aumento do uso de substâncias, encontra sua resposta primária não em políticas públicas abstratas, mas na intimidade de famílias saudáveis. O Estudo de Harvard sobre o Desenvolvimento Adulto, que acompanhou seus participantes por mais de 80 anos, chegou a uma conclusão categórica: a qualidade dos nossos relacionamentos íntimos é o preditor mais forte de saúde e felicidade na velhice, superando classe social ou genética 7.
Mas o que, afinal, é uma família saudável? Não é uma família de comercial de margarina, imune a brigas, mas uma em que existem vínculos seguros, estabilidade emocional e responsividade entre seus membros, ainda que o conflito continue presente 8. Mecanismos protetores poderosos não custam dinheiro: a supervisão amorosa reduz drasticamente comportamentos de risco na adolescência 9, e rotinas simples, como refeições em família quase todos os dias, reduzem pela metade a chance de adolescentes sofrerem de transtornos mentais comuns 10.
A outra face dessa história é mais dura, e é preciso olhar para ela de frente. Muitos jovens cresceram em lares onde essas rotinas e vínculos simplesmente não existiram, e a desestruturação familiar, marcada por negligência, divórcios conflituosos ou ausência parental, deixa cicatrizes profundas. Experiências adversas na infância aumentam de forma significativa os riscos de depressão e comportamentos autodestrutivos na vida adulta 11.
Para quem lê isso pensando que uma infância sem estrutura familiar significa um destino selado, a resposta da ciência contemporânea é, felizmente, negativa. A neurobiologia rejeita o determinismo: o cérebro humano possui neuroplasticidade suficiente para que os padrões de relacionamento aprendidos na infância sejam reescritos na vida adulta 12. A psicologia chama isso de segurança conquistada, a capacidade de desenvolver um apego seguro através de experiências corretivas e intencionalidade 12. E é justamente aí, na construção prática dessa segurança, que a teoria encontra o cotidiano.
Tudo começa com a busca intencional por experiências relacionais corretivas: engajar-se em terapia focada em trauma relacional, quando necessário, e cultivar amizades e relacionamentos amorosos com pessoas que demonstrem a consistência e a responsividade que talvez tenham faltado no passado, já que o cérebro aprende através da repetição de interações seguras 12. Vem depois uma mudança de perspectiva sobre o conflito, talvez a mais difícil de todas: famílias saudáveis brigam, e mesmo relações altamente seguras passam por desajustes frequentes 13. O que as diferencia não é a ausência de atrito, mas a priorização da reparação, assumir a responsabilidade quando há ruptura, validar a dor do outro e pedir desculpas genuínas, porque é a reparação, não a perfeição, que constrói confiança profunda e ensina que o amor sobrevive à frustração 13.
Falta ainda deixar de tratar a comunicação como um jogo de adivinhação. Em vez de esperar que os outros leiam a própria mente, um padrão comum em lares disfuncionais, vale comunicar necessidades com clareza, usando frases como "eu sinto" e "eu preciso", o que reduz a ansiedade e previne a agressividade passiva 14. E, por fim, vale estabelecer rotinas de conexão inegociáveis: refeições em família sem telas, momentos de escuta ativa e, para quem tem filhos, uma parentalidade que combine afeto com monitoramento constante 9, 10.
Nada disso é sofisticado, e é exatamente por isso que funciona. A família não é uma relíquia do passado, é a tecnologia social mais avançada que possuímos para regular nosso sistema nervoso e curar as fraturas da sociedade contemporânea. Não ter tido uma família estruturada é uma dor real, mas o ciclo pode ser quebrado a partir de qualquer geração, inclusive a nossa. Nenhum dos três eixos apresentados aqui, fé, casamento e proteção, seria dramático o suficiente para virar manchete sozinho. Juntos, porém, eles revelam algo mais raro: o primeiro sinal, em décadas, de que aquilo que se dava por moribundo está avivado, e voltando a oferecer a uma geração antes distraída na disputa das redes sociais por atenção e validação fútil um senso de propósito e autenticidade que só se constrói no ordinário de todos os dias.
Coautores
Tamie Tominaga é advogada formada pela FGV Direito SP, Chief Legal Officer da Coruja Capital, fundadora do movimento Oaks of Righteousness e influenciadora, criadora, ao lado de sua família, do quadro (extra)ordinário nas redes sociais, que alcançou dezenas de milhões de pessoas com conteúdo sobre fé, família e vida com propósito.
Rafael Gonçalves de Albuquerque é advogado, Conselheiro de Administração certificado pelo IBGC, autor do livro "O Impacto da Passagem de Patrimônio para as Novas Gerações" e cofundador da gestora de patrimônio Calix Family Office.
Rafael Albuquerque é advogado especializado em governança corporativa e familiar e em planejamento patrimonial internacional. Com experiência nos Estados Unidos, assessorou famílias de alta exposição em multi-family offices no Brasil e no exterior, com foco em wealth planning, estruturação de fundos privados, limited partnerships e special purpose vehicles. É coautor do livro “O Impacto da Passagem de Patrimônio para as Novas Gerações” e cofundador da Calix Family Office.