Crescer diante de uma tela muda a forma de enxergar a si mesmo
Nenhum adolescente deveria crescer acreditando que precisa ser perfeito para continuar existindo.
Foto: Reprodução/Internet
Quando penso na adolescência, penso em movimento. É uma fase de construção, descoberta e transformação. Um período em que a identidade ainda está sendo formada e em que cada experiência tem potencial para deixar marcas profundas. Hoje, parte significativa dessas experiências acontece dentro das redes sociais.
O anúncio do Instagram sobre a redução da exposição repetitiva de adolescentes a conteúdos relacionados a corpo, dieta e fitness me parece um convite para refletirmos sobre algo maior. Não se trata apenas de algoritmos. Trata-se da forma como estamos aprendendo a olhar para nós mesmos. Nunca tivemos tanto acesso a imagens, referências e opiniões. Ao mesmo tempo, nunca estivemos tão expostos à comparação.
Em poucos minutos navegando por uma plataforma digital, um adolescente pode entrar em contato com dezenas de corpos considerados ideais, rotinas aparentemente perfeitas e estilos de vida que parecem livres de qualquer imperfeição. Ainda que racionalmente saibamos que essas imagens representam apenas fragmentos da realidade, emocionalmente o impacto pode ser diferente.
Ao longo da minha atuação como psicóloga, percebo que muitos jovens chegam com a sensação de que não são suficientes. Não porque alguém tenha dito isso diretamente, mas porque passaram tempo demais observando versões editadas da vida de outras pessoas.
A comparação não é uma novidade. Ela sempre existiu. O que mudou foi a intensidade. Hoje ela está disponível vinte e quatro horas por dia, dentro do bolso, acessível a qualquer momento.
Por isso considero importante discutir não apenas o conteúdo que os adolescentes consomem, mas também a frequência e a forma como esse consumo acontece.
Quando um único tema ocupa espaço excessivo na experiência digital, outras referências deixam de existir. O jovem passa a enxergar menos diversidade e mais padronização. Menos possibilidades e mais cobranças.
Acredito que precisamos construir uma cultura que valorize a pluralidade. Corpos diferentes, histórias diferentes, trajetórias diferentes. Quanto mais contato os adolescentes tiverem com essa diversidade, maiores serão as chances de desenvolver uma percepção mais realista e acolhedora sobre si mesmos.
Nenhuma rede social deveria definir o valor de uma pessoa. Nenhum algoritmo deveria determinar quem merece admiração. E nenhuma fase da vida deveria ser atravessada sob a pressão constante de corresponder às expectativas impossíveis. Tenho a compreensão que a grande tarefa da nossa geração seja ensinar os jovens que pertencimento não nasce da perfeição. Ele nasce da possibilidade de existir como se é.
Maria Klien é psicóloga com foco no estudo e tratamento de distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua prática clínica combina métodos tradicionais e abordagens complementares, adaptadas às necessidades individuais. Como empreendedora, busca ampliar o acesso a recursos terapêuticos, promovendo ferramentas que auxiliam no equilíbrio emocional e no enfrentamento de questões que impactam o bem-estar psicológico.