Depois de criar a Rimowa, a família apostou em outro tipo de luxo que muitos desconhecem
Com apenas 22 quartos, a Quinta do Paral é um dos novos segredos do Alentejo que você precisa conhecer
Foto: Dieter Morszeck
Em uma propriedade cercada por vinhedos, oliveiras centenárias e pequenas aldeias de casas brancas, a Quinta do Paral surge como uma tradução precisa do novo luxo: aquele que não precisa se anunciar o tempo todo.
Localizado na Vidigueira, no coração do Alentejo, o hotel foi inaugurado em junho de 2024 com apenas 22 acomodações. Pouco mais de um ano depois, já havia conquistado duas Chaves Michelin, distinção reservada a estadias consideradas excepcionais, além de passar a integrar a The Leading Hotels of the World.
É uma trajetória rápida para um endereço que parece existir justamente para desacelerar o tempo.
A propriedade histórica, cujas origens remontam ao século XVII, foi cuidadosamente restaurada e integrada a uma nova ala de linguagem contemporânea. O projeto do escritório português Saraiva & Associados preserva os códigos do Alentejo — paredes caiadas, terracota, tijolos, madeira e tons naturais — sem transformar a tradição em cenário.
Nos interiores, o minimalismo é suavizado por tapetes da histórica Ferreira de Sá, obras criadas especialmente pelo artista David Reis Pinto, tecidos portugueses, couro e madeira. Tudo parece desenhado para não competir com a paisagem, mas para conduzir o olhar até ela.
As suítes mais amplas têm lareiras de dupla face, banheiras de mármore e terraços voltados para o nascer e o pôr do sol. Na ala histórica, tetos abobadados de tijolos e banheiras de pedra fazem referência aos antigos lagares. Para quem deseja privacidade absoluta, a Manor House reúne quatro quartos, cozinha, elevador interno e serviços que podem incluir chef particular e motorista.
Mas a Quinta do Paral não foi concebida para ser vivida somente dentro dos quartos.
A experiência se estende pelos 56 hectares de vinhas, com provas conduzidas pelo enólogo ou sommelier, passeios a cavalo, bicicletas elétricas, aulas de cozinha e piqueniques entre os campos. Durante o verão, uma cama de inspiração balinesa pode ser instalada entre os vinhedos para uma noite sob o céu do Alentejo — um luxo que depende menos de excessos e mais de silêncio.
A gastronomia também permanece ligada ao território. No The Wine Restaurant, o chef José Júlio Vintém revisita sabores regionais com ingredientes locais e o azeite produzido na própria quinta. O Estate Lounge oferece refeições mais leves junto à piscina, enquanto o Grape Rooftop foi pensado para o pôr do sol, quando as vinhas ganham outros tons e o ritmo do dia parece mudar.
Entre os detalhes mais surpreendentes está um Pilatus PC-12, aeronave própria utilizada em transfers e voos panorâmicos. O trajeto de aproximadamente duas horas de carro desde Lisboa pode ser feito pelo ar em cerca de 15 minutos, transformando a chegada em parte da experiência.
Há também uma dimensão menos visível, mas essencial ao projeto: a maior parte da equipe foi recrutada na própria região, a viticultura dispensa irrigação, métodos regenerativos são aplicados na propriedade e aproximadamente metade da energia consumida vem de painéis solares. Nos vinhos, na gastronomia, nas cerâmicas e nos tecidos, o Alentejo não aparece como decoração, mas como origem.
Talvez seja essa a razão de a Quinta do Paral ter conquistado reconhecimento internacional tão rapidamente. Em um mundo no qual o luxo tantas vezes se confunde com excesso, o hotel escolheu a edição: poucos quartos, experiências íntimas, serviço atento e uma relação verdadeira com o lugar.
A Quinta do Paral não tenta competir com a paisagem. Apenas cria as condições ideais para que o hóspede finalmente tenha tempo de percebê-la.
Beatriz Gerlack é fundadora e CEO da BRIDGE+55, agência estratégica de posicionamento para marcas de luxo. Com passagens pelo grupo LVMH, Dior e Rimowa, atua na conexão entre negócios, influência e relacionamento. Como colunista, escreverá sobre luxo, comportamento contemporâneo e conexões que movimentam reputações e legado.