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CEOs estão mais isolados do que nunca e quanto maior a empresa pior

Cercado de gente, mas sem contraditório, o CEO no topo das empresas virou um ponto de isolamento onde camadas e filtros afastam a liderança da realidade.

Por Roberto Valverde • • 2 min de leitura
Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Desde que comecei minha incursão empresarial eu ouvia dos mais experientes:

 

“Se prepare para conhecer a profissão mais ingrata do mundo.”

 

Na época eu achava exagero. Depois que virei sócio e CEO do meu próprio negócio, entendi que era só um jeito educado de dizer: você vai ficar sozinho.

 

Você até tem gente ao redor. Mas não tem gente de fora pra pensar com você. Pra bater ideia sem agenda. Pra te contrariar sem medo. Você vira refém da operação. E na sua mesa não chegam possibilidades — chegam problemas. Solução é luxo. O normal é urgência.

 

E é um equívoco achar que em empresa grande e “estruturada” o CEO vira pop star.

 

Quanto maior a organização, mais camadas, mais filtros, mais teatro.

 

E, na mesma proporção, mais isolamento.

 

O CEO delega, acha que “resolveu”, posa de maestro… e vira o principal gerador dos próprios problemas de gestão. Porque, quando tudo vira camada, a realidade não sobe. Sobe versão.

 

O executivo-chefe mal sabe o que acontece no chão de fábrica. Em compensação, sabe tudo o que acontece no corredor. E os comitês — esses templos modernos da inutilidade — retroalimentam os parasitas que sobrevivem de reunião em reunião, justificando seus cargos no auge da mediocridade.

 

As semanas que antecedem reunião de conselho são a radiografia do adoecimento corporativo.

 

Analista e gerente viram maratonistas de planilha, caçando número, “explicação”, narrativa. Não pra revelar a verdade. Pra deixar o PowerPoint apresentável. Bonito. Defensável.

 

O CEO recebe esse arsenal como quem se prepara pra um tribunal. Ele chama de “governança”. No íntimo, ele chama de “inquisição”.

 

E aí vem uma cena comum: o CEO chama diretores para “compartilhar” a apresentação.

 

Na prática, é dividir o foco das perguntas. Uma espécie de coleguismo egoísta: “se tiver tiro, toma você também”.

 

O isolamento faz isso com a gente. Vira instinto de sobrevivência.

 

No fim, o CEO continua sozinho — só que agora com plateia, roteiro e culpa distribuída.

 

E sim: eu acho que o ChatGPT virou um dos melhores amigos e terapeutas do CEO isolado.

 

Mas vai achando que isso tem romance.

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Coluna assinada
Roberto Valverde
M&A, governança, estratégia e bastidores de empresas familiares Roberto Valverde

Roberto Valverde é advisor de M&A e conselheiro consultivo, com trajetória construída na prática empresarial. Após fundar a Master Park e vender a companhia ao Pátria, passou a atuar em processos de venda, estratégia e governança para empresários e acionistas. Escreve sobre negócios com foco em criação de valor, decisões estratégicas e os bastidores reais do mundo empresarial.

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