A Expedia não comprou um hotel. Comprou o caminho até você.
Expedia aposta em IA para mudar a forma como viajantes encontram hotéis.
Foto: Ariane Gorin, CEO da Expedia Group
Você pede ao celular um hotel à beira-mar, silencioso, dentro do orçamento.
Em segundos, aparecem três opções.
Nenhuma foi escolhida por você.
Em 31 de julho, a Expedia anunciou a compra da Layla, plataforma de inteligência artificial que ajuda o viajante a descobrir destino, montar roteiro e reservar por meio de conversa. A empresa é sediada em Berlim e foi fundada em 2023. O valor não foi divulgado.
A Expedia não comprou quartos, restaurantes nem piscinas. Comprou o lugar onde a viagem ainda está ganhando forma.
O que mudou de dono não foi hospedagem. Foi a triagem.
Durante décadas, a disputa por um hóspede se decidiu em localização, preço, reputação e visibilidade na plataforma. Nada disso deixou de valer. Passou a ser julgado por outro juiz.
Antes, o viajante comparava dezenas de opções e escolhia. Agora, um sistema compara e apresenta três.
A decisão segue humana. A seleção, cada vez menos.
E aqui aparece a camada que o setor ainda não discutiu. O contrato que um hotel assina com uma agência online precifica comissão sobre reserva concluída. Não precifica aparecimento. Não existe cláusula dizendo em que condições o empreendimento entra ou sai de uma recomendação, quem responde quando ele deixa de entrar, nem a que informação o proprietário tem direito para saber por quê.
O hotel carrega um risco que está no negócio dele e não está em contrato nenhum.
Um hoteleiro dirá que isso é assunto de channel manager, resolvido com tarifa arrumada, foto boa e política de cancelamento clara. Era, enquanto a briga era por posição numa lista que o hóspede via inteira. Numa lista de três, ninguém sabe que ficou de fora, nem contra quem.
O Global AI Sentiment Report, da Booking.com, ouviu 37.325 pessoas em 33 mercados entre abril e maio de 2025 e mediu as duas pontas dessa tensão. 89% querem usar inteligência artificial para planejar viagem. Apenas 12% se sentem confortáveis com a tecnologia decidindo sem participação humana, e 6% dizem confiar plenamente nela.
Conveniência quase todos querem. Delegação, quase ninguém.
Para quem investe em ativo hoteleiro, isso desloca parte da avaliação. Diária, ocupação e localização continuam no centro. Ao lado delas entra uma pergunta que não estava no modelo: quanto do valor deste imóvel depende de um canal de descoberta que o proprietário não controla e sobre o qual não tem instrumento contratual algum?
A hospitalidade continua sendo feita por pessoas.
O caminho até elas mudou de dono.
José Henrique Azeredo é executivo, conselheiro, engenheiro civil e advogado especializado em M&A pelo Insper. É Diretor Institucional da RTSC Holding, conselheiro do Grupo Wish e vice-presidente de Financiamento de Projetos da Comissão de Infraestrutura da OAB-SP. Foi vice-presidente do Conselho de Administração da Braskem. Há mais de 20 anos atua em investimentos, governança, infraestrutura, turismo, negociação e inteligência artificial aplicada aos negócios.