Notícias 24h no WhatsApp

Assine o Not Journal

Receba notícias em tempo real, análises profissionais e acesso ao Terminal Web.

Plano Básico
WhatsApp + Terminal básico
R$19,90 /mês
WhatsApp 24 Horas
Notícias por temas
Terminal Web básico
Começar Agora
Plano Completo
WhatsApp + Terminal Premium
R$299,90 /mês
Tudo do Básico
Terminal Web completo
Análises profissionais
Começar Agora

O golpe que mira galerias de arte e faz a vítima pagar duas vezes pelo mesmo quadro

No mercado de arte, o golpe mais caro nem sempre envolve uma tela falsa.

Rebecca Ferreira 21 Jun 2026
Foto: Reprodução/Internet

Foto: Reprodução/Internet

Um colecionador fecha a compra de uma obra. Negocia o preço, recebe a fatura e combina a transferência. Horas depois, chega um e-mail educado, do mesmo endereço de sempre: “Desculpe, nossos dados bancários mudaram. Segue a fatura atualizada”. Ele paga. A obra é verdadeira; o problema é que a conta para onde o dinheiro foi não era da galeria. Em minutos, o valor desaparece.

A maioria das pessoas imagina que, num caso assim, o prejuízo cai sobre o banco ou sobre a galeria que teve o e-mail invadido. Errado: na maioria das vezes, quem arca com a perda é quem caiu no golpe. Volto a esse ponto em um instante. Antes, vale entender como a fraude funciona.

A técnica se chama Business Email Compromise, a fraude do “homem no meio”. O criminoso invade o e-mail de uma galeria ou marchand, acompanha em silêncio as conversas de venda por semanas e, no instante exato do pagamento, passa-se por uma das partes para trocar os dados da transferência. Quando o comprador desconfia, o dinheiro já passou por três contas e evaporou.

A arte é o alvo ideal por motivos estruturais: transações de altíssimo valor, fechadas depressa, com pouca papelada e muita informalidade, diante de uma clientela rica. O The Art Newspaper revelou a onda de ataques ao setor e mostrou que galerias do porte de Hauser & Wirth e Simon Lee entraram na lista de alvos, com prejuízos estimados de £ 10 mil a £ 1 milhão por caso.

Quase ninguém denuncia: num meio movido a discrição, admitir o golpe é constrangedor, e a perda desaparece no silêncio. Em 2024, nem a Christie’s, fundada em 1766, escapou de um ataque que derrubou seus sistemas por dias.

Agora, a parte que quase ninguém sabe. Quando o pagamento cai na conta do criminoso, tribunais americanos vêm decidindo, de forma recorrente, que quem pagou errado ainda deve. O mesmo princípio vale na Inglaterra, onde estão muitas das galerias atingidas.

A lógica é antiga: entre duas vítimas inocentes, o prejuízo recai sobre aquela que estava em melhor posição para evitar a fraude. Quem recebe uma segunda instrução de pagamento, com banco e conta diferentes, e mesmo assim transfere sem telefonar para confirmar, costuma ser considerado o elo mais negligente.

No caso Peeples v. Carolina Container, uma empresa que transferiu US$ 1,7 milhão para um golpista foi obrigada a honrar novamente a dívida com o vendedor verdadeiro. Traduzindo para o mercado de arte: o quadro é autêntico, o dinheiro sumiu e você ainda pode dever o valor integral à galeria. Paga-se duas vezes pela mesma tela.

O setor gasta fortunas autenticando o objeto: investiga a proveniência, rastreia cada antigo dono e paga laudos para validar uma pincelada. Ao mesmo tempo, trata o pagamento, o momento em que o dinheiro realmente troca de mãos, com a informalidade de quem ainda vive nos anos 1990. A falsificação que rouba não é a da tela. É a do e-mail.

A inteligência artificial inclinou de vez a mesa para o golpista. O velho sinal de alerta, o português capenga, desapareceu: estima-se que cerca de 40% dos e-mails desse tipo de fraude já sejam escritos por IA, impecáveis e personalizados.

A versão extrema do truque já apareceu no mundo corporativo. Em 2024, um funcionário da multinacional de engenharia Arup transferiu US$ 25 milhões depois de participar de uma videochamada inteira com “executivos” que eram deepfakes. Num negócio de arte fechado por e-mail e WhatsApp, nem é preciso tanto. Basta uma fatura convincente na hora certa.

No Brasil, o agravante é técnico. A transferência internacional clássica leva dias e passa por bancos que, com sorte e um advogado rápido, às vezes conseguem congelar o valor a tempo. O Pix não oferece essa folga: liquida na hora e é, na prática, irreversível.

Quando o colecionador desliga o telefone depois de confirmar, o dinheiro já se foi. E o mercado de arte brasileiro, cada vez mais digital, fecha negócios de seis e sete dígitos exatamente por esses canais.

A defesa é barata e quase toda comportamental, o que torna os prejuízos ainda mais difíceis de justificar. A regra de ouro é simples: dado bancário não muda por e-mail, nunca. Antes de qualquer transferência relevante, confirma-se por voz, usando um número que já existia antes do negócio. Qualquer “fatura corrigida” de última hora merece ser tratada como golpe até prova em contrário.

O detalhe é que essa ligação de trinta segundos não é apenas prudência. Como mostram os tribunais, é exatamente o que pode separar quem perde o dinheiro de quem consegue recuperá-lo.

Porque, num mercado obcecado em saber se a pintura é verdadeira, a falsificação mais cara é a única que ninguém pendura na parede.

Coluna assinada
Rebecca Ferreira
Art advisor Rebecca Ferreira

Rebecca Ferreira é fundadora da Rivka Art Advisory, consultoria especializada em aquisição, gestão e desenvolvimento de coleções privadas. Atua conectando estratégia de investimento, curadoria e posicionamento cultural. Atende colecionadores experientes e iniciantes, com orientação personalizada, e colabora com galerias, leilões e projetos no Brasil e exterior. Também promove artistas brasileiros e produz conteúdo sobre o mercado de arte.

Compartilhar