Uso do machismo em campanhas desvia foco da pauta fiscal
Discursos machistas se tornam tática eleitoral para desviar foco de temas urgentes e gerar engajamento nas redes.
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Em meio ao acirramento do cenário eleitoral de 2026, o uso de discursos baseados em machismo consolidou-se não apenas como um reflexo de preconceitos estruturais ainda presentes na sociedade, mas como uma estratégia de campanha friamente calculada por marqueteiros e candidatos. Táticas que envolvem ataques diretos de gênero, interrupções sistemáticas em debates e posturas de dominação masculina são empregadas de forma deliberada para polarizar o eleitorado e dominar o ciclo de notícias no debate público. Essa cortina de fumaça retórica, no entanto, cumpre um papel ainda mais pragmático e preocupante para diversos grupos políticos: desviar a atenção da mídia e dos eleitores de temas áridos, complexos e de extrema urgência para o futuro do país, especialmente aqueles ligados à transição econômica, à segurança jurídica e à sustentabilidade das contas públicas a longo prazo.
O marketing político contemporâneo compreende perfeitamente que a indignação gera engajamento imediato e massivo nas plataformas digitais. Ao adotar uma postura machista, seja para desqualificar adversárias mulheres com insinuações sobre descontrole emocional ou para apelar a uma base conservadora que valoriza a figura estereotipada do homem forte e resolutivo, as campanhas garantem manchetes diárias e discussões acaloradas nas redes sociais. Trata-se de um mecanismo clássico de evasão de responsabilidade. Enquanto a sociedade civil, ativistas e formadores de opinião gastam energia debatendo declarações polêmicas e comportamentos inadequados, os candidatos são poupados da difícil tarefa de apresentar propostas concretas para os gargalos estruturais que o Brasil enfrentará nos próximos anos. A superficialidade do ataque pessoal e da guerra cultural substitui, com vantagens eleitorais de curto prazo, a profundidade exigida na formulação de políticas públicas eficientes.
O contraste absoluto entre o barulho ensurdecedor das campanhas e o silêncio sepulcral sobre a pauta econômica torna-se evidente quando se observa o andamento da regulamentação da reforma tributária. A implementação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) em âmbito federal e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) para estados e municípios representa uma das maiores e mais complexas transformações institucionais das últimas décadas no Brasil. Sob a perspectiva de um observador imparcial e técnico, a unificação de tributos e a mudança na forma de arrecadação deveriam ser o centro absoluto das sabatinas, entrevistas e debates televisivos. Contudo, os impactos reais dessa mudança no cotidiano das empresas, na atração de investimentos estrangeiros e no bolso do consumidor final são sistematicamente ignorados pelos postulantes a cargos públicos, que preferem o conforto das trincheiras ideológicas.
Um dos pontos mais críticos dessa omissão deliberada diz respeito à enorme insegurança jurídica que se avizinha no horizonte corporativo nacional. Especialistas em direito tributário alertam de forma veemente para uma grave lacuna normativa envolvendo os créditos judiciais de PIS e Cofins após o ano de 2027. Atualmente, o texto da reforma não apresenta uma regra de transição clara e pacificada que garanta como as empresas poderão utilizar os créditos bilionários já reconhecidos pelos tribunais quando o novo sistema de valor agregado entrar plenamente em vigor. Esse vácuo legislativo tem o potencial de gerar um contencioso sem precedentes na Justiça brasileira e travar decisões de investimento produtivo. Apesar da gravidade, o tema passa ao largo dos discursos de palanque, completamente ofuscado pela estridência das pautas de costumes e pelas agressões verbais.
A mesma falta de transparência e de debate aprofundado contamina as discussões sobre o planejamento financeiro do Estado para o próximo ciclo governamental. O Orçamento de 2027 já vem sendo classificado por analistas econômicos e auditores de contas públicas como um verdadeiro esconde-esconde fiscal. O governo atual e os legisladores trabalham com estimativas de arrecadação otimistas, baseadas na futura cobrança da CBS e do recém-criado Imposto Seletivo, mas sem revelar ou definir as alíquotas exatas que sustentarão essas contas no papel. Projetar receitas multibilionárias sobre bases legais ainda indefinidas mascara o real tamanho do desafio fiscal brasileiro. Essa manobra cria uma perigosa ilusão de equilíbrio orçamentário, cuja fatura será inevitavelmente cobrada da população logo após o encerramento do período eleitoral, possivelmente sob a forma de aumento da carga tributária ou corte de serviços essenciais.
A opção consciente por transformar o machismo em ferramenta de tração eleitoral revela, portanto, um sintoma agudo de empobrecimento do processo democrático brasileiro. Ao substituir a complexidade do planejamento estatal e da responsabilidade fiscal pela facilidade do preconceito embalado como produto de marketing, os candidatos furtam do eleitor o direito fundamental de escolher caminhos viáveis para a economia. Q