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Ricos nos EUA Usam Jatos e Lava a Jatos para Pagar Menos Impostos

Quer entender por que algumas famílias conseguem multiplicar patrimônio geração após geração, enquanto outras apenas assistem o dinheiro evaporar em impostos.

Rafael Albuquerque 03 Nov 2025
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A diferença não está em trabalhar mais horas por dia, mas sim em utilizar a lei com inteligência.

Nos Estados Unidos existe um mecanismo totalmente legal que permite algo que à primeira vista pode parecer surpreendente. Uma empresa com alto lucro pode adquirir uma aeronave executiva ou um lava a jato e, no mesmo ano, praticamente zerar o imposto que deveria pagar ao governo. O imposto transforma-se em patrimônio. Em vez de ver parte significativa do resultado desaparecer, o valor é convertido em ativos reais que continuam produzindo retorno nos anos seguintes.

Esse instrumento é conhecido como “bonus depreciation”, ou depreciação acelerada, previsto no § 168(k) do Internal Revenue Code. Essa regra permite que o valor total de determinados bens que se desgastam com o tempo e são utilizados em atividades empresariais seja integralmente deduzido no ano em que entram em operação, desde que atendidas as exigências legais. Originalmente introduzida pela Tax Cuts and Jobs Act (TCJA) de 2017, a medida previa redução gradual do benefício ao longo dos anos. No entanto, a One Big Beautiful Bill Act (OBBBA), sancionada em janeiro de 2025, restaurou permanentemente a dedução de 100 % para bens qualificados adquiridos e colocados em serviço a partir de 19 de janeiro de 2025, consolidando o incentivo como uma das ferramentas fiscais mais poderosas do sistema americano.

Para ilustrar: se uma empresa registra lucro de US$ 10 milhões em determinado exercício e compra uma aeronave executiva pelo mesmo valor, a dedução fiscal pode reduzir a base tributável para quase zero. O resultado é que o imposto que seria pago não aparece, e o capital permanece na estrutura patrimonial da família ou empresa.

No caso da aeronave, há ainda geração de receita adicional. Quando ela não está sendo usada pelo proprietário, pode ser disponibilizada para fretamento comercial, gerando fluxo de caixa e contribuindo para o pagamento dos custos de operação. O que antes era uma despesa de luxo torna-se um ativo operacional. A mesma lógica aplica-se ao lava a jato. Esse tipo de estabelecimento envolve instalações, tubulações, bombas, sistemas mecânicos que se desgastam e precisam de substituição.

Essa natureza permite que quase todo o investimento seja classificado como ativo depreciável rapidamente, habilitando-se para a dedução acelerada. O investidor compra o imóvel e o equipamento, registra a dedução, recebe a receita da operação e reduz a carga tributária de forma significativa. O dado relevante é que, em muitos casos reais, a economia fiscal do primeiro ano supera o lucro operacional do negócio. Isso significa que até uma operação com margem moderada torna-se extremamente vantajosa quando avaliada pela lente da eficiência tributária.

Os efeitos no mercado são visíveis. A Bloomberg registrou aumento expressivo na compra de aeronaves corporativas após o fortalecimento da regra de 100 % de depreciação acelerada. Consultorias tributárias apontam crescimento superior a 100 % no número de clientes buscando esse tipo de estrutura.

A estratégia se organiza em quatro fundamentos objetivos:

• Menor imposto pago – preservação de caixa dentro da estrutura familiar de modo lícito e planejado.
• Ativos que geram renda real – os bens passam a trabalhar para pagar custos e gerar excedente.
• Potencial de valorização ou liquidez futura – o ativo pode ser vendido com ganho patrimonial.
• Sucessão com patrimônio produtivo – o bem permanece relevante para a geração seguinte.

Há críticas à política. Especialistas apontam que o incentivo pode deslocar capital para setores de menor impacto social direto, como lazer ou serviços de nicho, em vez de habitação ou infraestrutura. O Congresso dos EUA estima uma renúncia fiscal na ordem de US$ 363 bilhões em dez anos. Mesmo assim, enquanto a lei permitir, investidores estruturados aplicam-se ao mecanismo. Para famílias empresárias no Brasil, o modelo americano não é uma cópia direta, mas oferece lições valiosas. O princípio é o mesmo: tratar o imposto como variável estratégica de longo prazo. No contexto brasileiro a eficiência fiscal passa por:

• utilização adequada de holdings e veículos operacionais;
• reorganizações societárias estratégicas e bem documentadas;
• vínculos claros entre investimento, operação econômica e gestão patrimonial;
• governança estruturada para suportar auditorias e fiscalizações.
Quem ignora essa agenda não perde tudo de uma vez. Perde aos poucos, ano após ano.

Nos Estados Unidos aeronaves executivas e lava a jato são apenas a expressão mais visível de uma regra fiscal bem compreendida. No Brasil existem diversas ferramentas que, quando aplicadas corretamente, resultam no mesmo objetivo essencial: menor imposto pago e mais patrimônio preservado dentro da família.

Patrimônio não se conserva por sorte ou rotina. Ele exige método, conhecimento técnico e decisões consistentes. Famílias que se organizam mantêm o que construíram. Famílias que adiam seguem expostas às perdas silenciosas que o sistema impõe.
No fim, a pergunta que todo empresário deveria fazer não é “quanto imposto vou pagar este ano?”, mas “quanto do que construí continuará rendendo para minha família nas próximas décadas?”.

Autor: Rafael Albuquerque é advogado, co-fundador da Calix Multi-Family Office.

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