O trio que ignorou o manual do Vale do Silício e vendeu sua startup por US$ 13 bilhões
Como três franceses transformaram um chatbot em uma gigante da IA avaliada em US$ 13 bilhões.
Foto: Reprodução/Internet
Na corrida das startups, o padrão dos fundadores é clássico: nascido e criado nos Estados Unidos, formação em universidades de elite e passagem pelo Vale do Silício. Mas e quando uma empresa consegue prosperar mesmo sem pertencer às características padrão do sucesso?
Foi isso que aconteceu na última semana de agosto: uma empresa fundada por um trio de franceses foi comprada por 13 bilhões de dólares pela NVIDIA, a maior empresa de chips do mundo. O nome da startup é Hugging Face e surgiu como uma grande biblioteca pública de IAs, mas, ao invés de livros, o usuário pode consultar milhares de modelos prontos para construir o seu.
E a história por trás é inusitada: em 2016, Clément Delangue, filho de um dono de uma loja de jardinagem com uma enfermeira, se juntou com Julien Chaumond e Thomas Wolf para fundar sua própria startup, que se iniciou como um chatbot para adolescentes.
Clément, hoje CEO da companhia, nasceu no interior da França e nunca teve dinheiro para viajar. Sua janela pro mundo só se abriu quando ganhou o primeiro computador aos 17 anos.
O jovem logo descobriu o eBay, onde começou a revender quadriciclos usados e rapidamente se tornou um dos maiores vendedores da plataforma, inclusive sendo chamado para fazer um estágio na companhia.
Ainda curioso com todas as possibilidades da internet, Clément se inscreveu em um curso de engenharia online e gratuito na universidade de Stanford, onde conheceu seus outros dois sócios, Julien Chaumond e Thomas Wolf.
Chaumond, atual CTO da companhia, se formou em matemática e fez carreira em engenharia no governo francês. Antes da Hugging Face, foi cofundador de uma startup de leitura em e-books.
Mas Chaumond não era só um entusiasta de tecnologia: o jovem também gostava de música e conheceu Thomas Wolf, o terceiro sócio da companhia, em uma banda de rock cover dos anos 90 (imagine conhecer seu futuro sócio de uma empresa bilionária fazendo cover de Alanis Morissette).
Já Thomas Wolf, atual Chief Science Officer, não teve uma carreira linear. Se formou em física estatística, passou no MIT, recusou a vaga e resolveu fazer uma segunda formação em direito depois de se frustrar com a lentidão das coisas na física.
Ali, passou cinco anos como advogado de propriedade intelectual para startups e afirmou que foi um diferencial chave para fundar sua própria empresa depois.
Em 2016, o trio se reuniu através do curso gratuito de Stanford e percebeu um problema em comum entre os jovens: nem todos os adolescentes têm amigos disponíveis na hora em que precisam conversar - ou sequer têm amigos.
Foi aí que resolveram colocar os aprendizados do curso em prática e fundar o Hugging Face, um aplicativo de chatbot para adolescentes, como um amigo virtual de IA.
A proposta não era criar um assistente, só fazer companhia. “Estamos construindo uma IA para você se divertir conversando com ela”, declarou Delangue na época.
Mas em 2018, quase ninguém costumava falar de IA como nos dias de hoje e “conversar com robôs” era quase um delírio. O único modelo de IA que chamava atenção era um do próprio Google, chamado BERT, que melhorava buscas e entendia frases mesmo sem informações suficientes.
Para engenheiros e especialistas de tecnologia, o BERT era ótimo e promissor, mas muito difícil de usar. Foi aí que Wolf, atual CSO da Hugging Face, resolveu reescrever o modelo de linguagem em uma sexta-feira à tarde e publicar no Twitter para quem quisesse usar.
Sem imaginar, o post explodiu. De repente, milhares de pessoas que não conseguiam (ou não queriam) usar o modelo do Google começaram a usar só por conta da sua publicação.
Foi ali que o trio enxergou o real valor do seu negócio: criar uma plataforma para compartilhar linguagens de IA seria mais vantajoso do que uma linguagem de IA em si.
Os sócios resolveram pivotar a Hugging Face, abandonar o chatbot para adolescentes e criar uma "rede social" para linguagens de IA, que rapidamente viralizou entre a comunidade e fomentou o compartilhamento de modelos de IA na época (o próprio ChatGPT provavelmente foi construído com o apoio das linguagens disponíveis na plataforma).
O crescimento foi exponencial. Mesmo antes do boom da IA com o ChatGPT, em 2019, a empresa foi avaliada em 80 milhões de dólares.
Em 2023, após o lançamento do ChatGPT, a empresa foi avaliada em 4,5 bilhões, com uma receita batendo cerca de 70 milhões anuais.
E hoje, em 2026, a Hugging Face vale 13 bilhões de dólares e reúne mais de 13 milhões de usuários, incluindo o eBay, a mesma empresa onde o CEO estagiou quando adolescente.
Mesmo com um faturamento de 150 milhões de dólares ao ano, a empresa vale 86x mais do que o valor que gera. Isso prova que o interesse da NVIDIA parte do efeito de rede construído pelo trio de franceses, não apenas no dinheiro gerado ao final.
De três amigos que se conheceram em um curso online e gratuito para agora fundadores de uma das companhias mais disputadas do momento, a Hugging Face prova que o caminho pro topo da inteligência artificial não precisa seguir o roteiro decorado do Vale do Silício, apenas enxergar uma oportunidade onde a maioria iria ignorar.
Empreendedora desde os 12 anos, quando lançou seu primeiro e-commerce que vendia para todo o Brasil, Amanda Steyer é fundadora da Steyer Brand, criadora de conteúdo sobre negócios e escritora da newsletter Pensamento Cítrico. Atua como especialista de estratégia de produto na AB-InBev e tem passagem na marca nova-iorquina de calçados Larroudé.