Lei Maria da Penha: 20 anos de avanços e os desafios persistentes
Debate no Senado avalia conquistas e aponta obstáculos para a proteção integral das mulheres contra a violência.
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Sessão no Senado Federal debate o legado da legislação e aponta caminhos para o futuro no combate à violência contra a mulher.
Em 2026, o Brasil marca duas décadas de vigência da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), um marco legislativo fundamental na proteção das mulheres contra a violência doméstica e familiar. Para celebrar e, sobretudo, analisar criticamente o percurso da legislação, o Senado Federal realizou uma sessão especial que reuniu parlamentares, especialistas e representantes da sociedade civil. O encontro, ocorrido em 14 de agosto de 2026, destacou os inegáveis avanços conquistados, mas também lançou luz sobre os desafios persistentes que impedem a plena efetivação da lei e a erradicação da violência de gênero no país.
A Lei Maria da Penha, inspirada na luta incansável de Maria da Penha Maia Fernandes, transformou o cenário jurídico e social brasileiro ao criar mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica. Antes de sua promulgação, muitos casos eram tratados como meras contravenções penais, com penas brandas e pouca efetividade. A lei trouxe consigo a criação de juizados especializados, a possibilidade de medidas protetivas de urgência, como o afastamento do agressor do lar, e a tipificação mais rigorosa dos crimes. A sua importância transcende o âmbito legal, promovendo uma conscientização social sobre a gravidade da violência doméstica e encorajando as vítimas a buscarem ajuda e denúncia.
Durante a sessão, foram apresentados dados que ilustram o impacto positivo da lei. A criação de delegacias especializadas de atendimento à mulher (DEAMs) e a capacitação de profissionais para lidar com casos de violência de gênero foram apontadas como ações cruciais para o acolhimento e encaminhamento das vítimas. A expansão dos serviços de apoio psicossocial e jurídico também contribuiu para que mais mulheres se sentissem amparadas e seguras para romper o ciclo de violência. A discussão ressaltou que a lei não apenas pune, mas também busca prevenir, através de campanhas educativas e programas de conscientização que visam desconstruir a cultura machista e patriarcal que, historicamente, tem sido um dos pilares da violência contra a mulher.
No entanto, o tom da sessão rapidamente se voltou para os obstáculos que ainda se interpõem no caminho para uma sociedade livre de violência de gênero. A subnotificação de casos, a morosidade do sistema judiciário, a falta de estrutura adequada em algumas regiões do país e a persistência de discursos que minimizam a gravidade da violência doméstica foram apontados como pontos críticos. A necessidade de maior investimento em políticas públicas de prevenção, educação e empoderamento feminino foi amplamente defendida. A discussão sobre a efetividade das medidas protetivas e a garantia de sua aplicação rigorosa também emergiu como um ponto central, pois a lei só cumpre seu papel se as medidas de proteção forem de fato implementadas e fiscalizadas.
Um dos aspectos abordados foi a complexidade da violência de gênero, que muitas vezes se entrelaça com outras vulnerabilidades sociais. A discussão sobre a relevância de instituições filantrópicas no atendimento a mulheres em situação de violência, conforme apontado em pesquisas recentes, demonstrou a importância de uma rede de apoio multifacetada. Essas instituições desempenham um papel crucial no suporte psicossocial e na reinserção social das vítimas, complementando o trabalho do Estado.
A sessão também tocou em temas correlatos que impactam a vida das mulheres, como a recente aprovação de uma convenção entre países de língua portuguesa para facilitar o acesso à Previdência Social para trabalhadores migrantes. Embora não diretamente ligada à Lei Maria da Penha, a iniciativa reflete uma preocupação crescente com a proteção de grupos vulneráveis e a garantia de direitos, um princípio que deve permear todas as esferas de atuação legislativa.
Olhando para o futuro, os debates no Senado Federal sinalizaram a necessidade de um compromisso contínuo e aprimoramento das políticas públicas. A educação para a igualdade de gênero desde a infância, o fortalecimento dos órgãos de segurança e justiça, a ampliação dos canais de denúncia e o combate à impunidade foram elencados como prioridades. A aproximação do período eleitoral, com o início da propaganda eleitoral em agosto de 2026, também foi mencionada como um momento crucial para que as pautas de direitos das mulheres e combate à violência de gênero sejam debatidas e incorporadas nas plataformas dos candidatos.
Em suma, os 20 anos da Lei Maria da Penha representam um período de conquistas significativas, mas também um chamado à ação. A legislação é uma ferramenta poderosa, mas sua plena eficácia depende da articulação entre o Estado, a sociedade civil e cada cidadão para construir um país onde a violência contra a mulher seja, de fato, uma memória do passado.