Havaí transforma redes de pesca e plástico reciclado em asfalto sustentável
Inovação transforma lixo marinho em pavimento, buscando soluções ambientais para a infraestrutura da ilha.
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Projeto pioneiro reaproveita redes de pesca abandonadas e resíduos plásticos das ilhas para criar alternativa mais sustentável à pavimentação tradicional.
O Havaí tem se destacado como pioneiro em uma solução criativa para dois problemas que afetam diretamente o arquipélago: o acúmulo de lixo plástico marinho e a necessidade de infraestrutura rodoviária mais sustentável. A iniciativa, conduzida pelo Centro de Pesquisa de Detritos Marinhos (CMDR) da Hawaiʻi Pacific University em parceria com o Departamento de Transportes do Havaí (HDOT), transforma redes de pesca abandonadas e resíduos plásticos domésticos das ilhas em um componente do asfalto usado na pavimentação de estradas.
A pesquisa nasceu de uma pergunta direta feita pelo HDOT à química ambiental Jennifer Lynch, diretora do CMDR: seria possível incorporar plásticos descartados ao pavimento como forma de descarte ecologicamente mais adequada, e esse material liberaria microplásticos ou outras substâncias no ambiente? Desde 2020, as estradas havaianas já usam um asfalto modificado por polímeros (PMA), fabricado a partir da fusão de grânulos de estireno-butadieno-estireno (SBS) em ligante asfáltico de base petrolífera. A pesquisa testou substituir parte desse polímero por polietileno reciclado, extraído das redes de pesca e do plástico doméstico coletado nas ilhas — o polietileno foi escolhido por ser um plástico mais durável.
As redes de pesca abandonadas, apontadas por Lynch como o maior contribuinte para o problema de detritos marinhos do Havaí, são retiradas do oceano e enviadas ao continente americano, onde uma empresa especializada as converte em material compatível com a mistura asfáltica. De volta a Oahu, o material processado é incorporado ao asfalto ainda quente e aplicado diretamente nas ruas. Os primeiros trechos a receberem o novo pavimento ficam em Ewa Beach.
Os resultados preliminares foram apresentados por Jeremy Axworthy, pesquisador do CMDR, na reunião de primavera da American Chemical Society, realizada entre 22 e 26 de março de 2026, em Atlanta. Usando a técnica de pirólise acoplada à cromatografia gasosa com espectrometria de massas, a equipe conseguiu identificar e comparar os polímeros liberados por cada tipo de pavimento. Após 11 meses de monitoramento das vias já pavimentadas com o material reciclado, os testes indicaram que a liberação de microplásticos não foi significativamente maior do que a observada no asfalto convencional com SBS — um resultado importante, já que o receio inicial era de que o novo material pudesse piorar a poluição por microplásticos em vez de reduzi-la.
Para a equipe de pesquisa, a motivação vai além do desempenho técnico. Lynch destaca que parte da sociedade enxerga a reciclagem de plástico com ceticismo, mas defende que o estudo mostra que ela pode funcionar quando a sustentabilidade é tratada como prioridade real. Do ponto de vista prático, a iniciativa também ataca um problema concreto para o Havaí: os altos custos e a dificuldade logística de transportar, incinerar ou descartar resíduos plásticos em um estado insular, além da pressão crescente sobre aterros sanitários já sobrecarregados.
Os pesquisadores reforçam que ainda são necessários mais estudos para avaliar a durabilidade do pavimento a longo prazo, mas os resultados iniciais abrem caminho para que a técnica seja adotada em outras regiões costeiras que enfrentam desafios semelhantes de poluição marinha e gestão de resíduos plásticos. Se o modelo se confirmar como viável em escala maior, o projeto havaiano pode se tornar referência para iniciativas de economia circular na infraestrutura de outros países e regiões litorâneas ao redor do mundo.