Economia em duas velocidades: lucro em alta para alguns, dificuldades
Lucros expressivos em alguns setores contrastam com a crescente dificuldade enfrentada por consumidores e pequenas empresas.
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A economia brasileira apresenta um cenário de contrastes aguçados, com setores e empresas registrando resultados expressivos, enquanto uma parcela significativa da população e de negócios enfrenta desafios crescentes. A recente divulgação de balanços financeiros revela um panorama onde a recuperação e a expansão convivem com a pressão da inadimplência e a instabilidade econômica.
O setor bancário, por exemplo, tem demonstrado resiliência e capacidade de geração de lucro. O Bradesco, um dos maiores bancos do país, apresentou um lucro líquido recorrente de R$ 7 bilhões no segundo trimestre de 2026, superando as expectativas do mercado. Este resultado marca o décimo trimestre consecutivo de alta, evidenciando uma gestão financeira eficaz e um controle sobre a inadimplência que permitiu um Retorno sobre Patrimônio Líquido (ROE) de 16,2%. A expansão da carteira de crédito, que atingiu R$ 1,1 trilhão, com um crescimento de 11,6%, também contribui para esse desempenho positivo. A melhora na eficiência, com índices que alcançaram 46,5%, demonstra a capacidade do banco em otimizar suas operações, mesmo diante de um aumento de 22,6% nas provisões, indicando uma antecipação a possíveis riscos.
No varejo, a Lojas Riachuelo também sinaliza um momento de virada e expansão. A empresa reportou um segundo trimestre com recordes históricos em seu EBITDA (Lucros Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização), um indicador fundamental da sua capacidade operacional. Esse desempenho positivo, que superou as projeções de analistas, sugere uma recuperação e um potencial de crescimento futuro, abrindo caminho para novas estratégias de expansão.
Entretanto, essa realidade de prosperidade para grandes corporações e instituições financeiras contrasta fortemente com a situação de muitos brasileiros. A inadimplência, embora sob controle para os bancos, reflete um endividamento elevado e dificuldades de pagamento para famílias e pequenas empresas. O aumento das provisões por parte das instituições financeiras, mesmo que estratégico para mitigar riscos, é um reflexo direto da fragilidade econômica que afeta uma parcela considerável da população.
A dualidade econômica se manifesta em diversos níveis. Enquanto grandes empresas conseguem navegar em um ambiente de juros ainda elevados e inflação persistente, utilizando estratégias de gestão e acesso a crédito para manter e expandir suas operações, muitos consumidores e pequenos empreendedores lutam para honrar seus compromissos financeiros. O custo de vida elevado, a instabilidade no mercado de trabalho e a dificuldade de acesso a crédito com condições favoráveis criam um cenário desafiador para quem está na base da pirâmide econômica.
Essa divisão econômica levanta questões importantes sobre a sustentabilidade do crescimento e a equidade social. A capacidade de grandes players em gerar lucro e expandir seus negócios, embora positiva para a economia em termos de investimento e geração de empregos qualificados, não se traduz automaticamente em melhoria de vida para todos. A concentração de riqueza e a dificuldade de ascensão econômica para os mais vulneráveis permanecem como desafios estruturais.
O futuro da economia brasileira dependerá, em grande parte, da capacidade de mitigar essas disparidades. Políticas públicas que visem o fortalecimento do poder de compra da população, o incentivo ao empreendedorismo de pequeno porte e a redução do endividamento familiar são cruciais para construir um cenário mais inclusivo e resiliente. A análise dos resultados financeiros de grandes empresas oferece um vislumbre do potencial de recuperação e crescimento, mas é fundamental que esse progresso seja acompanhado por medidas que garantam que os benefícios sejam distribuídos de forma mais ampla, evitando que a economia permaneça dividida entre os que vendem e os que sofrem.