Como famílias de alto patrimônio estão redefinindo sua proteção digital
Deepfakes, clonagem de voz e fraudes coordenadas por terceiros transformaram rapidamente o cenário de risco das famílias de alto patrimônio.
Foto: Reprodução/Internet
A seguir, as cinco práticas que os family offices mais sofisticados do mundo já adotaram e que ainda são raras no Brasil.
O dia em que um deepfake do CFO custou US$ 25 milhões
Em fevereiro de 2024, um funcionário da Arup, em Hong Kong, entrou em uma videochamada aparentemente rotineira. Do outro lado da tela estava o CFO da empresa, acompanhado de colegas que ele reconhecia tanto pelo rosto quanto pela voz, o que tornava a situação ainda mais convincente. Com a urgência típica de fechamento de mês, solicitaram que ele realizasse quinze transferências bancárias, e nada naquele momento indicava desvio do procedimento padrão.
Somente depois veio a descoberta de que nenhum dos rostos era real. Todos haviam sido gerados por inteligência artificial a partir de vídeos públicos disponíveis em plataformas como LinkedIn e YouTube. O prejuízo chegou a vinte e cinco milhões de dólares.
O episódio rapidamente deixou de ser exceção e passou a funcionar como modelo. Ao longo de 2025, plataformas de deepfake sob demanda se popularizaram a ponto de permitir que qualquer pessoa, mesmo sem conhecimento técnico, clone a voz de um executivo com poucos segundos de áudio extraídos de entrevistas, podcasts ou stories em redes sociais.
Os dados confirmam essa mudança de cenário. Pesquisa da Omega Systems, divulgada em 2025, indica que 83% dos family offices já consideram deepfake e impersonation suas principais preocupações cibernéticas. No mesmo sentido, relatório da RBC em parceria com a Campden Wealth aponta que quase três em cada quatro family offices da América do Norte sofreram ao menos um ciberataque no período recente. Em sete de cada dez casos, o risco cibernético já aparece como o principal risco operacional, superando isoladamente fatores de mercado, regulatórios ou reputacionais.
Ainda assim, a maioria dessas fraudes pode ser evitada quando há disciplina na execução. As cinco práticas a seguir vêm sendo adotadas pelas famílias mais bem assessoradas globalmente, com forte apoio dos family offices na coordenação e na governança do dia a dia.
Prática 1. Verificação multicanal como defesa real contra clonagem de voz
A primeira medida consiste em institucionalizar o que o mercado chama de verificação multicanal. Na prática, isso significa estabelecer uma regra simples e inegociável: nenhuma transferência, autorização ou liberação de documento sensível deve ser confirmada pelo mesmo canal em que foi solicitada.
Se o pedido chega por WhatsApp, a validação ocorre por ligação para um número previamente conhecido. Se surge em uma videochamada, a confirmação deve acontecer por canal alternativo previamente acordado, ou presencialmente, quando aplicável.
Em complemento, famílias mais estruturadas utilizam uma palavra de verificação compartilhada apenas entre familiares e assessores de confiança, exigida em situações fora do padrão. O mecanismo é simples, mas altamente eficaz, justamente porque a inteligência artificial não consegue reproduzir algo que nunca foi exposto publicamente. Para operações de maior valor, o padrão internacional evoluiu para dupla aprovação com autenticação independente, garantindo que a validação não dependa do mesmo fluxo que originou o pedido.
Prática 2. O e-mail como centro de controle do patrimônio
Existe uma premissa frequentemente subestimada: quem controla o e-mail principal controla o restante do sistema. É por meio dele que senhas são redefinidas, documentos são interceptados e identidades são simuladas.
Por essa razão, o e-mail funciona como o verdadeiro ponto central de controle, mais relevante do que a própria conta bancária. O Business Email Compromise continua sendo, de forma consistente, um dos vetores de fraude mais lucrativos globalmente.
A proteção começa pela substituição do SMS como segundo fator de autenticação, já que esse método permanece vulnerável a ataques de troca de chip. O uso de chaves físicas de segurança eleva significativamente o nível de proteção. Além disso, a revisão periódica das regras de encaminhamento automático da caixa de entrada é indispensável, pois invasores frequentemente criam filtros discretos para redirecionar comunicações sensíveis sem alterar a aparência da conta.
Por fim, manter um endereço de e-mail exclusivo para comunicação com o family office, sem exposição pública, reduz de forma relevante a superfície de ataque.
Prática 3. Auditar a cadeia invisível de prestadores
Mesmo famílias disciplinadas tendem a ignorar um ponto crítico: o risco não está apenas nelas, mas na rede de prestadores que as atende.
Contadores, advogados, gestores e corretores concentram informações completas sobre o patrimônio, incluindo dados fiscais, contratos e estrutura societária. Assim, ainda que a família adote práticas rigorosas, a vulnerabilidade pode surgir por meio de terceiros.
Nesse contexto, o chamado risco de prestadores deixou de ser um detalhe e passou a figurar entre as principais fragilidades identificadas internacionalmente. A diligência cibernética sobre esses parceiros deixa de ser excesso de zelo e passa a integrar o próprio dever fiduciário.
Exigir padrões mínimos de segurança, questionar práticas de armazenamento de dados e entender protocolos em caso de incidentes são medidas básicas. Muitas vezes, a qualidade das respostas, ou a ausência delas, já revela o nível real de exposição.
Prática 4. Segurança digital e física precisam andar juntas
Um equívoco recorrente é tratar segurança digital e segurança física como temas independentes. Na realidade, parte expressiva dos ataques contra famílias de alto patrimônio já combina as duas dimensões, e a defesa precisa acompanhar essa lógica.
Equipamentos baratos, vendidos livremente na internet, conseguem bloquear sinais de Wi-Fi e desativar câmeras residenciais em poucos segundos. Drones discretos permitem mapear rotinas familiares à distância. Em viagens, redes de hotéis e aeroportos passam a representar pontos críticos de exposição, sobretudo porque decisões financeiras relevantes costumam acontecer nesses ambientes.
A resposta envolve segmentar a rede doméstica em diferentes níveis de acesso, separando dispositivos inteligentes, áreas de visitantes e operações sensíveis. Em paralelo, redundâncias simples, como câmeras com conexão celular independente, eliminam vulnerabilidades evidentes.
Durante viagens, o padrão recomendado é mais restritivo: uso contínuo de VPN, bloqueio automático em caso de falha de conexão e nenhum acesso a contas financeiras em redes públicas. Antes do embarque, vale revisar backups, desativar conexões automáticas e ajustar as configurações de compartilhamento dos dispositivos.
Prática 5. Sucessão digital como extensão da governança patrimonial
O ponto mais negligenciado costuma aparecer no longo prazo. Em eventos inesperados, muitas famílias descobrem que não conseguem acessar ativos digitais, contas internacionais ou mesmo documentos armazenados em nuvem, o que pode gerar tanto perdas financeiras quanto paralisação operacional.
Ao mesmo tempo, criminosos monitoram informações públicas para explorar esse tipo de vulnerabilidade, especialmente em contextos sucessórios.
Nesse cenário, a solução passa por integrar formalmente o planejamento sucessório à governança cibernética. O inventário digital precisa ser formalmente estruturado, estar atualizado e ser revisado com a mesma disciplina aplicada ao patrimônio financeiro. Para ativos digitais específicos, como criptoativos, estruturas de custódia compartilhada já são amplamente utilizadas. Para o restante, a definição de acessos delegados e instruções formais a trustees torna-se essencial.
O papel do family office no apoio à governança cibernética
Nenhuma dessas práticas funciona de forma isolada. Por isso, as famílias que vêm adotando esse padrão de proteção encontram nos family offices um apoio essencial para coordenar a execução, e essa é uma das mudanças mais relevantes dos últimos anos no setor.
Na prática, o family office assume o papel de coordenador da governança cibernética da família. Isso envolve centralizar a definição de protocolos, organizar auditorias periódicas dos prestadores, conduzir treinamentos com familiares e equipe, e estruturar a resposta a incidentes para que ela aconteça com método, e não no improviso.
No topo do mercado internacional, esse apoio tende a se organizar em três camadas. A primeira é a contratação de segurança técnica especializada, com monitoramento contínuo, inteligência de ameaças e operações conduzidas por equipes externas dedicadas. A segunda é a realização de simulações periódicas, que permitem testar a reação da família e da equipe diante de cenários reais de fraude. A terceira é o controle ativo da exposição digital, com remoção de dados públicos disponíveis em excesso, limitação do material que pode ser explorado por inteligência artificial e gestão contínua da presença online dos principais.
Em estruturas mais maduras, essa função já é formalizada como uma responsabilidade específica dentro do family office.
A discussão atual deixou de ser se a família será alvo e ponto agora é outro: entender quando isso acontecerá e se a estrutura estará preparada para responder com um método previamente planejado ao invés de reagir de forma improvisada.
Co-autores:
João Brasio é especialista em cibersegurança, fundador e CEO da Elytron CyberSecurity.
Rafael Albuquerque é advogado especialista em Governança Corporativa, fundador e Diretor Institucional da gestora de patrimônio Calix Family Office.
Rafael Albuquerque é advogado especializado em governança corporativa e familiar e em planejamento patrimonial internacional. Com experiência nos Estados Unidos, assessorou famílias de alta exposição em multi-family offices no Brasil e no exterior, com foco em wealth planning, estruturação de fundos privados, limited partnerships e special purpose vehicles. É coautor do livro “O Impacto da Passagem de Patrimônio para as Novas Gerações” e cofundador da Calix Family Office.