Ambipar afunda na Bolsa em meio a dívidas bilionárias
Com mais de R$ 10 bilhões em dívidas e falhas internas na gestão, a Ambipar tenta atravessar turbulência que pode definir seu futuro.
Endividada após anos de aquisições, a companhia tenta reorganizar as finanças.
A Ambipar, uma das líderes brasileiras em gestão ambiental e de resíduos, atravessa uma das piores crises de sua história. Nos últimos meses, suas ações (AMBP3) despencaram de forma abrupta: -78% em 30 dias, com uma queda de 50% apenas em 2 de outubro de 2025, refletindo o pânico do mercado.
A companhia, listada na B3 desde 2020 e operando em 35 países com foco em sustentabilidade, acumula uma dívida que varia entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões, agravada por problemas de governança e uma tutela cautelar que suspendeu cobranças de credores por 30 dias (renovável). O Not Journal conversou com pessoas próximas à situação, que revelaram detalhes exclusivos sobre os bastidores. O ex-diretor financeiro teria recebido autonomia excessiva da família controladora, aproveitando-se da confiança para realizar operações de risco e contratos sem autorização do conselho de administração. Essa falta de diligência interna contribuiu para o acúmulo de dívidas e desequilíbrios operacionais, agravando a crise. Uma fonte próxima acredita que a empresa pode entrar em recuperação judicial, mas vê isso como positivo: "Poderia levar apenas 1 ano, reorganizando a casa, melhorando processos internos e impulsionando os lucros de forma disparada."
Para enfrentar o caos, a Ambipar contratou a BR Partners, banco de investimento fundado por Ricardo Lacerda e uma das instituições mais respeitadas do mercado, para assessorar a reestruturação financeira e a renegociação da dívida com credores. A tutela emergencial dá fôlego imediato, mas acentua percepções de fragilidade.
Alguns credores questionam o paradeiro do caixa da companhia – estimado em R$ 4,7 bilhões no fim do segundo trimestre –, quando informes internos indicam apenas US$ 80 milhões localizados até agora. A empresa avalia alternativas de recuperação judicial tanto no Brasil quanto nos EUA, considerando o uso do Chapter 15 para coordenar processos internacionais. A sombra regulatória complica ainda mais o cenário. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu um processo administrativo sancionador contra a Ambipar por suspeitas de irregularidades nas operações de recompra de ações, que poderiam ter ultrapassado o limite legal de 10% do free float. Além disso, a CVM analisou compras coordenadas de ações recém-realizadas pelo controlador Tércio Borlenghi Jr. e fundos ligados ao banco Master e ao empresário Nelson Tanure. A autarquia sugeriu inicialmente a obrigatoriedade de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA), mas decidiu que o caso não se enquadra nessa exigência. Essa dualidade regulatória gera incerteza, com impactos reputacionais e legais que afetam a confiança dos investidores. No foco da auditoria interna está um contrato de empréstimo com o Deutsche Bank, com aditivo assinado por um antigo executivo sem autorização do conselho e atrelado a green bonds que caíram mais de 70% recentemente. Fontes próximas afirmam que esse aditivo pode ter sido determinante no desequilíbrio cambial e na ativação de cláusulas cruzadas (cross-default), que permitem aos credores exigirem pagamentos antecipados de toda a dívida do grupo. Entre risco e resiliência, uma pessoa próxima a um membro da família controladora da Ambipar afirma que eles seguem confiantes apesar da turbulência, prontos para se concentrar nas operações. "A empresa tem um 'moat' fortaleza, com um modelo de negócio de alta barreira de entrada. É difícil para uma nova companhia assumir o que a Ambipar faz, com relacionamentos com governos em vários países e acordos privados com indústrias que superam contratos governamentais."
Os fundamentos do negócio não se deterioraram, e a companhia vem quitando compromissos herdados de seu ciclo de expansão via aquisições – justamente o que gerou a dívida atual.
A crise pode representar uma oportunidade para investidores comprarem ações baratas, mas a recuperação não é garantida em curto prazo: pode demorar mais de 1 ano ou menos com um aporte externo, dependendo das negociações com credores. O ponto de atenção é que, sendo um negócio de alto capex, o ativo pode não parecer atrativo no curto prazo. Ainda assim, pessoas próximas projetam um próximo fiscal melhor, com foco em reajustes internos.