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A geração que desaprendeu a usar as mãos e está pagando o preço

O excesso de tecnologia tem consequências silenciosas que ainda não compreendemos.

Not Journal 07 May 2026
Foto: Reprodução/Internet

Foto: Reprodução/Internet

Não se trata apenas de dependência digital ou redução de atenção. Existe algo mais profundo acontecendo na forma como o corpo passou a existir no mundo.

A vida contemporânea deslocou experiência humana para superfícies. Tocamos telas durante horas, mas quase não tocamos matéria. Deslizamos dedos sobre aplicativos enquanto perdemos contato com textura, ritmo, peso e permanência.

Talvez por isso exista algo tão simbólico no retorno recente das atividades manuais. Bordado, cerâmica, desenho, pintura e costura voltaram a ocupar espaço não apenas como entretenimento, mas como necessidade emocional.

Tenho observado que muitas pessoas chegam emocionalmente exaustas sem conseguir identificar exatamente o motivo. Sentem ansiedade constante, dificuldade de concentração, irritabilidade e sensação de vazio mesmo após períodos de descanso. Existe um cansaço cognitivo atravessando nossa geração.

O cérebro humano não foi preparado para sustentar hiperestimulação contínua. Notificações, excesso de informação, comparação permanente e velocidade alteraram a forma como atenção, memória e percepção emocional funcionam.

A ansiedade contemporânea possui uma característica importante. Ela raramente encontra repouso. Mesmo em momentos de pausa física, a mente continua funcionando em estado de antecipação. Existe uma incapacidade crescente de permanecer no presente.

Atividades manuais produzem um movimento contrário. Elas devolvem sequência temporal para experiência psíquica. Existe começo, continuidade e conclusão. Existe permanência. Existe construção.

Quando alguém desenha ou costura, não existe apenas distração. Existe reorganização sensorial. O corpo volta a participar da experiência emocional.

Também considero importante observar outro aspecto. A lógica digital transformou quase tudo em consumo imediato. Perdemos tolerância para processos lentos. Queremos respostas rápidas, relações rápidas, reconhecimento rápido e alívio rápido. O problema é que saúde mental não opera nessa velocidade.

O trabalho manual confronta essa dinâmica porque exige espera. A peça não fica pronta instantaneamente. O desenho precisa de elaboração. O erro faz parte do processo.

Existe uma dimensão psicológica importante nessa experiência de repetição. Movimentos contínuos ajudam a reduzir hiperatividade mental porque criam previsibilidade para o sistema nervoso. Em um cenário interno marcado por excesso de estímulo, repetição pode funcionar como contenção emocional.

Também percebo crescimento de experiências coletivas ligadas a práticas manuais. Pessoas que antes socializavam apenas digitalmente passaram a buscar encontros presenciais mediados por criação. Isso revela uma tentativa de reconstruir vínculos fora da lógica de performance das redes.

A internet ampliou acesso, informação e comunicação. Mas também intensificou comparação, aceleração e fragmentação subjetiva. Muitas pessoas perderam a capacidade de permanecer consigo mesmas sem algum tipo de distração constante.

Talvez o retorno das atividades manuais seja menos sobre nostalgia e mais sobre sobrevivência psíquica. Existe algo profundamente humano em produzir com as mãos. O corpo reconhece ritmo, textura e permanência de uma maneira que nenhuma tela consegue substituir.

Há também sinal cultural potente na Bienal de Veneza desse ano. A proposta curatorial inclui espaços de descanso e instalações que convidam à contemplação, à escuta, ao deslocamento sensorial e à desaceleração. Em uma exposição de escala global, a pausa deixa de ser intervalo e passa a ser linguagem.

Essa escolha diz muito sobre a época. O visitante, acostumado a circular, consumir, fotografar e nomear, é convocado a interromper a compulsão de ver tudo. A obra passa a operar como um limite para a pressa. Não se trata apenas de olhar, mas de permanecer.

Esse gesto se aproxima do que acontece nas atividades manuais. Costurar, desenhar, pintar ou bordar também criam uma interrupção na lógica da aceleração. A mão devolve tempo à mente. O corpo recupera uma forma de presença que a cultura digital tentou substituir por estímulo contínuo.

Sobre Maria Klien:

Maria Klien exerce a psicologia, com título de mestra na área, orientando sua investigação aos distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua atuação clínica integra métodos tradicionais e práticas complementares, com foco nas demandas emocionais de cada indivíduo em seu contexto singular. Também é criadora do Psicologia da Moda, iniciativa que articula comportamento, identidade e expressão a partir da relação entre vestuário e subjetividade. Como empreendedora, se dedica à ampliação do acesso a recursos terapêuticos voltados à saúde psíquica, desenvolvendo instrumentos que contribuem para o equilíbrio mental e para o enfrentamento de questões que atravessam o bem-estar psicológico de cada paciente.

Coluna assinada
Maria Klien
Psicóloga, autora e palestrante internacional Maria Klien

Maria Klien é psicóloga com foco no estudo e tratamento de distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua prática clínica combina métodos tradicionais e abordagens complementares, adaptadas às necessidades individuais. Como empreendedora, busca ampliar o acesso a recursos terapêuticos, promovendo ferramentas que auxiliam no equilíbrio emocional e no enfrentamento de questões que impactam o bem-estar psicológico.

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